10 de jul de 2011

Apenas uma taça - um brinde ao mestre Stoker, por Georgette Silen


 
Sem opções, abriu o leque vermelho. Outra cabeça rolou naquela noite. Gotas de sangue brincaram nas pontas do leque e Camila as lambeu, provocando uma expressão de asco em Baltazar.

- Você e seus escrúpulos - ela divertiu-se por um momento e depois, tomando cuidado para não se deixar tocar, borrifou a mistura de água benta e alho sobre os corpos restantes, que se dissolveram.

Trecho do conto A Dama do Leque Escarlate, disponível para degustação na Editora Estronho.


Georgette Silen, que já enveredou pelo universo vampiresco no excelente Lázarus, retorna ao tema em Apenas uma taça - Um brindo ao mestre Stoker. Em 15 contos  e noveletas, os mais variados vampiros são representados. Dos seres mitológicos relatados pelos diferentes povos - e que serviram de base para o clássico monstro criado pelo mestre Stocker - até chegarmos ao “vampiro moderno”, o herói romântico e sedutor, que sofre pela humanidade perdida e tenta, a todo custo, ajustar-se entre os mundos. Em comum, a eterna sede pelo sangue que carrega a vida que não possuem mais.

Esta é a capa definitiva, divulgada nos últimos dias pela Editora Estronho. Mais uma vez, a Estronho arrasou na capa: sombria, sensual e sugestiva, tem na figura feminina a representação da sede, da paixão e das sombras que marcam o mito. O lançamento será durante o Fantasticon 2011.

O livro tem prefácio de Jr. Cazeri, e o moço do Café de Ontem alerta: "do poético ao pulp, Georgette Silen dá um novo fôlego para um tema que não estava cansado, apenas desgastado pela falta de imaginação." Pois é justamente o aspecto inovador que despertou minha curiosidade.

Conversei com Georgette Silen e ela, gentilmente, concordou em falar um pouco mais do processo de escrita desse livro. O resultado você confere aqui, um papo muito agradável sobre escrita, influências e, claro, vampiros. Meu muito obrigada a essa autora talentosa, e muito querida da LitFan nacional. Espero que os leitores do blogue gostem tanto quanto eu gostei.
 

À LitFan – Como surgiu o seu interesse pela literatura fantástica? 

Georgette Silen - Olá Tânia, é um prazer conversar com você nesse seu espaço tão especial. ^^ Obrigada pela oportunidade de bater um papo com o pessoal que acompanha seu blog. Bem, pela literatura fantástica eu já me interessava mesmo antes de saber o que ela era, e acredito que isso acontece com muitas pessoas. Afinal, todos nós já lemos algum conto de fadas na infância, alguma história da carochinha ou fábula maravilhosa, sem nos darmos conta de que elas fazem parte desse universo de fantasia fantástica. Crescemos lendo, contando e recontando as mesmas histórias centenas de vezes. Quando decidi começar a escrever narrativas, percebi de imediato que a fantasia iria nortear meus trabalhos, que era pelo que eu me interessava de imediato, e não lutei contra essa vontade, ao contrário, abracei com ambos os braços, todos os dedos e todas as idéias que tive. E ainda pretendo ver aonde a fantasia irá me levar.
À LitFan - “Apenas uma taça - um brinde ao mestre Stoker” será lançado oficialmente no Fantasticon 2011. Poderia nos falar um pouco mais sobre este trabalho?

Georgette Silen - Vou deixar aqui alguns trechos do texto de apresentação do livro, que escrevi para o mesmo, acho que ele fala bem sobre a obra: ^^
“Quando pensamos em vampiros, imediatamente nos vêm à mente uma primeira palavra: Drácula. E depois que a imagem mental e sugestiva do vampiro romeno, criado por Bram Stoker em 1897, se instala em nosso cérebro, outras referências vão se acumulando e descortinando a imensa variedade de tipos e arranjos sofridos pelo mito ao longo dos séculos para se ajustar e atender a uma demanda de fãs e apaixonados por todo o mundo. Hoje, além do monstro amaldiçoado por Deus que rasga gargantas e suga virgens indefesas, se transmuta em névoa e lobos, sensível aos ícones cristãos, temos também o noturno romântico, sedutor, que apresenta uma constante crise de identidade, fazendo-o ser um pária entre dois mundos distintos; pode ou não estar do lado dos mocinhos da história, — ou ser ele mesmo o herói não compreendido— pode caminhar sob a luz do sol (mesmo que brilhe) e arrastar multidões de leitores de diversas idades. Adultos, adolescentes, mulheres... Ninguém está imune totalmente ao encanto mortal, e imortal, de um vampiro. O apelo comercial do mito alcançou as telas de cinema, os seriados de TV, os jogos eletrônicos, as HQs e RPGs, as inúmeras publicações sobre o tema e até as passarelas da moda. Criou uma tendência adotada por muitos. Um estilo de vida.

Mas em nenhum momento podemos negar que essa invasão sanguessuga começou de forma concreta com o irlandês Stoker. Ao utilizar-se de mitos folclóricos e figuras históricas para criar uma fantasia urbana em pleno século XIX, antes mesmo desse termo ter sido cunhado pelos críticos em literatura, acabou desencadeando com o tempo uma onda de fascínio nos leitores e se mostra tão imortal quanto o próprio mito. 

Vampiros existem na literatura, desde então, para todos os gostos e paladares (sim, é um ato antropofágico o consumo desse personagem), e a tendência é que continue a nos surpreender com suas variações, afinal, ele começou como tal. Stoker deu o pontapé ao abrir caminho para outros ficcionistas explorarem a criatura, dando-lhes as mais variadas dimensões e deixando tantas marcas na alma dos leitores quanto nos pescoços mordidos (...) por suas criações, desde os monstros impiedosos até os mais apaixonantes noturnos. O caldo sangrento é muito espesso. 

Como regra geral, o vampiro conquista pela sedução. Erótica? Sim, até certo ponto. Mas o que nos lança de braços abertos e pescoços desvelados para o deleite dos senhores da noite é, sem dúvida, a perspectiva da imortalidade. Ludibriar a morte faz parte da mais secreta fantasia de todo ser humano, ser imune ao seu toque, vencer o tempo, torná-lo incapaz de exercer seu poder sobre a frágil casca humana. Vampiros podem fazer isso, vampiros enganaram a senhora da foice. E enquanto houver vida e morte, os vampiros jamais deixarão de nos iludir com a promessa de um sonho inatingível, mas ansiado.

Essa coletânea de contos e novelas foi reunida procurando explorar, em diferentes nichos e tendências literárias, aspectos que tornaram o vampiro tão essencial e mágico aos olhos dos leitores. Sexualidade, amor, terror, traição, corrupção, inocência, entre muitos sentimentos humanos fortemente ampliados nos seres da noite, ou ausentes deles, podem ser conferidos. Há vampiros bons e há aqueles que não enxergam o homem como nada mais além de um bife no prato, uma refeição em potencial, e outros nem ao menos se reconhecem como vampiros, ausentes e presentes de uma realidade não compreendida. Foram escritos ao longo de dois anos e meio, entre pesquisas de mitos folclóricos ligados ao vampirismo na história da humanidade — e que diferem e muito dos exemplos românticos e humanos tão conhecidos — e também apresenta dois contos inéditos do universo do livro Lázarus, escrito por mim e lançado em 2010 pela editora Novo Século.

Minha admiração por Stoker, que acabou se refletindo de forma inusitada no título desse livro sugerido pelo editor M. D. Amado, se deve ao fato de ele ter aberto essas portas com sua obra. Os vampiros, antes e depois de Stoker, jamais foram os mesmos, e graças a sua inventividade eles continuam evoluindo, ou retomando suas raízes, para nos brindar com cada vez mais histórias extraordinárias, repletas de sangue, paixões e terrores.  

À LitFan - Quando o leitor abre as páginas de um livro, normalmente, o fascínio é pela narrativa em si. Pouco se sabe do trajeto percorrido pelo autor/autora. E muitas vezes, as pesquisas, as influências, o tempo de escrita e outros elementos que tenham surgido durante a concretização do projeto formam um conjunto bem interessante. Pensando nisso, À LitFan quer saber: como foi o processo de escrita desse livro?

Georgette Silen - Em verdade, esse livro não foi “pensado” a princípio como um livro. Foram contos e noveletas soltas, escritas ao longo de dois anos e meio. Enquanto eu me concentrava na elaboração de Lázarus, algumas ideias soltas iam surgindo com determinados mitos pesquisados e eu aproveitava para colocar no papel, até como exercício de linguagem. Muitos dos contos desse período são do universo do livro Lázarus, com seus personagens que o leitor reconhecerá de imediato, mas outros acabaram surgindo, como o Caçador de Deus, Scarlet Camila, Virgil, que agora entraram para a esfera de personagens que começam a ter mais histórias, como numa galeria cativa de personagens que me inspiram todos os dias.

A trilha sonora foi a mais variada possível: Sting, Metallica, clássicos, trilhas sonoras de filmes épicos e de terror. Vi muitos filmes clássicos, como Drácula; pesquisei em livros como A Grande Enciclopédia dos Vampiros e nas páginas do Google (claro), reli muitos gibis antigos da Kripta e outros que tenho guardado há décadas sobre o mito, adaptações para HQs de Drácula, originais de Vampirela e muito outros, e procurei ler cross overs de vampiros e personagens famosos, procurando dar o tom certo para a fantasia urbana, quando necessário, principalmente no caso do conto “Virgil”.

Uma viagem deliciosa, devo confessar.

Quando o editor M.D. Amado, então ainda apenas escritor e dono do site Estronho e Esquésito, soube que eu tinha esse material, ele fomentou a ideia de lançar em livro, e então, ao montar a editora, ele me fez o convite para viabilizar esse projeto.

À LitFan - Em várias culturas, o mito do vampiro tem alguma presença. Quais foram os mais sombrios ou estranhos encontrados em suas pesquisas?  No livro, estão representados em algum conto?

Georgette Silen - Sim, achei muita coisa inusitada e impensada para mim, que cresci acostumada com o mito do vampiro ocidental, do Nosferatu e o Drácula. Na verdade, os mitos de seres que se alimentam do sangue e força vital dos humanos são muito antigos, remontam a idade da pedra, e temos vários tipos de criaturas que representam os medos primordiais dos povos onde foram criados, inclusive personificados com detalhes apenas comuns a esses povos que os definiram como mito. Você não vai encontrar, por exemplo, traços do Asanbosan africano na mitologia vampírica da Europa, porque ele foi “criado” de acordo com os padrões geográficos, religiosos e antropológicos de determinadas sociedades tribais africanas. Ele é o que é para esses povos porque faz parte da psique de uma sociedade definida. Cada povo cria um mito para explicar suas deficiências, aquilo que não é capaz de definir por explicações racionais, apelando para o alegórico da questão. Dessa forma, tipos de criaturas noturnas das Filipinas e outros países, muitas vezes de baixa condição sócio-econômica, explicavam índices alarmantes de mortalidade infantil, de morte no parto, e outras fatalidades inexplicáveis, atribuindo aos Aswangs, Baitals, Adzes e incubus pelos seus infortúnios. E mesmo entre clérigos da Idade Média, por exemplo, era natural justificar poluções noturnas e sonhos eróticos como produto de súcubos sedutores, vampiras que sugavam energia sexual, cabendo assim ao maligno a culpa por ações de uma mente privada da condição de saciar sua fome e apetite sexuais naturais.

Quanto à presença desses mitos diferenciados no livro, sim, o leitor encontrará histórias, como “O Beijo do Loogaroo” “A Asa Negra da Morte” e “O Cântico do Súcubo” onde tais mitos pouco convencionais são explorados em suas minúcias, expondo uma realidade que é bem pouco conhecida de muitos ávidos leitores de histórias vampíricas.

À LitFan - Há algum conto ou noveleta que seja o seu favorito no livro? Por qual razão?

Georgette Silen - Bem, são 15 contos e noveletas, e cada uma delas foi especial, sem dúvida. Gosto muito do “Minha Bela Adormecida”, um conto mais “Anne Rice”, que escrevi ouvindo Bourbon Street, do Sting, influenciada pelo clima de Entrevista com o Vampiro. Também gosto da linguagem mais técnica de “O Colecionador de Ossos”, da poesia de “Uma Canção para Homero” e “Uma prece para Clementine”, ambos contos que fazem parte do universo de Lázarus, e também pelo “O Cântico do Súcubo” um dos mais sensuais do livro. Acredito que eles revelam muito da pesquisa sobre mitos de vampiros e sobre o caráter multifacetado do mito. Espero que o leitor aprecie esses trabalhos e os outros que serão expostos.
À LitFan - Esta não é a primeira vez que você explora o tema na literatura, então, qual o grande fascínio dessas criaturas? Por que escrever sobre vampiros?

Georgette Silen - A minha pergunta seria: como não escrever sobre eles? Vampiros são o que há de mais misterioso, assustador, sedutor e paradoxal na literatura fantástica e na mitologia dos povos. Tememos fantasmas, tememos lobisomens, tememos outros monstros, mas sempre ficamos na dúvida quando pensamos: tememos os vampiros, ou gostaríamos de ser como eles? (claro, dentro da visão ocidental romântica do personagem). Afinal, eles têm aquilo que almejamos em segredo: vencer a morte. O preço é alto, todos o conhecem, mas ainda sim acalentamos uma forma de justificar os meios pelos fins, de achar que valeria a pena, de nos enganarmos em princípio com a ideia de que “não seria assim tão ruim”, afinal, não morrer é o maior sonho do homem, fugir da inexistência enquanto criatura terrena. Isso o vampiro conseguiu, pois por mais que se fale nele, que se escreva sobre ele, ainda existe assunto, ainda há história, e sua imortalidade reside nisso.

Para saber mais


Página da autora no Skoob:  Georgette Silen

Twitter: @georgettesilen

Blogues: Lázarus
             Georgette Silen 



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