12 de fev de 2011

Clube do Livro: A História Sem Fim, de Michael Ende


A História Sem Fim

Resenha de Tânia Souza


A História Sem Fim, de Michael Ende, não começa com o clássico Era uma vez... e sim em uma manhã de chuva, fria e cinzenta, quando um garoto fugindo da perseguição dos colegas, entra numa livraria e encontra o livro que irá mudar sua vida. No entanto, ainda que não ofereça o conhecido “Era uma vez...” tem em si a essência dos mais belos contos de fantasia.  E como as mais interessantes narrativas, convida o leitor a se deixar envolver por ela a ponto de descobrir em si mesmo, facetas desconhecidas. Um livro que brinca com a ideia de transformar leitores em protagonistas.

É a história de Bastian Balthazar Bux. Um menino melancólico, deslocado, perdido em um mundo, para ele, cada vez mais cruel. Um jovem contador de histórias que se resguarda no universo da fantasia e que, em sua jornada pessoal, primeiro como leitor, depois como personagem, deverá aprender inúmeras lições e, encontrar-se ou perder-se de vez. São páginas que nos contam de uma busca, de um caminho entre imaginação e realidade, entre a fantasia e a razão.

Ler A História Sem Fim é conhecer Fantasia, este local onde todas as criaturas e aventuras florescem, para o Bem ou para o Mal, para o Belo ou para o Feio. Encantar-se com valente Atreiú e Fuchur, O Dragão Branco da Sorte. Admirar uma Imperatriz Criança. Temer a força do Nada. E surpreender-se com tantas outras criaturas fantásticas. Aliás, cada uma delas exerce um fascínio singular. Mas é principalmente, lembrar-se da necessidade de manter viva a magia de acreditar e principalmente, reconhecer a força da literatura. É apaixonar-se mil vezes mais pela magia da imaginação, das fábulas, dos contos.
       
Pois nessa manhã de chuva, após sentir-se irremediavelmente atraído por ele, Bastian rouba um livro chamado A História Sem Fim, e mergulha no universo dessas páginas, tentando não se lembrar da realidade que o envolve. Quando a existência do mundo presente no livro passa a depender de suas ações, tudo se transforma. Também ele se tornará um personagem de Fantasia? Entre as diversas emoções que a leitura oferece a ele e, também a nós leitores, surgem questionamentos sobre a própria existência; têm-se a presença da vida e da morte, da força das escolhas, da culpa, do medo, do sonho, da fantasia, da alegria e da tristeza, da solidão, do autoconhecimento, da coragem e do amor.

Por isso, pode-se dizer que essa é também uma história da própria leitura, da formação do leitor, do fascínio e da paixão que o universo literário pode oferecer. “O livro começou a tremer em suas mãos. Decididamente, aquilo estava indo longe demais! Não era possível que, em um livro impresso, pudesse estar escrito algo que só se referia àquele momento e a ele.”

 Esse não é o mesmo sentimento de um leitor perplexo em ver como um autor consegue, por meio de simples palavras, saber de algo que lhe toca tão profundamente? Talvez a literatura seja um longo caminho de sensibilização e percepção para quem ousa se perder, ou se encontrar, nas páginas de um livro. De leitor a protagonista, Bastian mergulha no universo de Fantasia e também ele, ajudou a escrever uma história sem fim. A força desse titulo já me intrigou. Mas é justamente minha concepção de leitura que passa por ele, afinal, toda história não tem de fato um fim, enquanto um leitor estiver vivenciando-a, o verdadeiro sentido só será construído ali, no momento da leitura, no instante em que as palavras do autor tomam forma e sentido na força imaginativa do leitor.

Mesmo que Bastian quisesse, não teria podido evitar o que estava lhe acontecendo. Mas não queria, de maneira nenhuma! Pelo contrário, não renunciaria a esse tesouro por nada deste mundo. Só queria uma coisa: continuar a ler, para reencontrar a Filha da Lua, para tornar a vê-la. Ele não podia adivinhar que, assim, iria lançar-se irrevogavelmente em uma aventura estranha e também perigosa. Mas, mesmo que tivesse podido adivinhar, nem por isso teria fechado o livro, pondo-o de lado para não mais tocá-lo.

Porque ler é construir sentido, é a união entre leitor, autor e texto, é a construção de um mundo único, e a cada vez que voltamos a esse mundo, somos outros, e outro é o universo que ali nos espera. “... mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião.”

Título: A história sem fim
Edição: 12
Editora: Martins Fontes
ISBN: 8533613156
Ano: 2005
Páginas: 392

Clube do Livro: os sites de literatura fantástica À Litfan, Café de Ontem e Mundo de Fantas se reuniram para criar o Clube do Livro, um evento mensal onde todos lemos e comentamos uma mesma obra, dando a nossos leitores visões diferentes de autores clássicos e contemporâneos.

2 comentários:

jrcazeri disse...

Muito bom você ter destacado a união entre leitor, autor e texto, em resumo, é isso mesmo, um grande universo criativo de palavras e sentimentos, com um toque especial de interação.

Gostei muito da resenha, T.

Celly Borges disse...

Suas resenhas têm sempre um tom de poesia, fica bonita, dá um outro ar às resenhas tão comuns...

Bacana mostrar sobre o contato com o leitor.

As três resenhas mostraram pontos diferentes que se completam, massa isso.

^.^

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