22 de out de 2010

Expressionismo - Arte de Dor e Sombras


Expressionismo - Arte de Dor e Sombras

Por Tânia Souza

O desejo de subjetividade constitui a base da Estética Expressionista, concretizando-se nas artes plásticas, na música, no cinema, na pintura e na literatura. Este movimento surgiu na pintura como uma reação ao Impressionismo e a visão objetiva da natureza. Os pintores expressionistas buscavam uma interpretação pessoal e intensa sobre o que a natureza sugeria, assim, a principal diferença das obras ditas expressionistas é o fato de refletirem um estado de insatisfação, melancolia e paixão. Caracterizando-se por uma constante proximidade ao horror, ao fantástico e ao demoníaco, ao triste, ao melancólico, ao dolorido de estar vivo, o Expressionismo deixa de ser uma vanguarda, um estilo único, e perpassa por vários estilos e artistas, em uma viva expressão da dor, do medo e na angústia diante da vida. Pode refletir um momento, uma fase, ou ser o espelho dos olhos de quem representa o mundo com o horror absoluto de estar vivo.





No cinema, Nosferatu, filme realizado por F.W.Murnau em 1922, reflete bem o ambiente buscado na obra expressionista. Apontado como um dos melhores filmes já realizado, é considerado um clássico. A caracterização sugerida, nas sombras e no cinza, todos os contrastes tornam este filme assustador, e incrivelmente belo. É eterno no imaginário de cinéfilos, nos pesadelos vampirescos. As mãos desenhando-se lentamente à medida que as escadas são ultrapassadas, as mãos tocando e torcendo o pescoço suave entregue sobre a cama, a fotografia bem cuidada, o horror sugerido, as mãos e a deformação da realidade, são alguns elementos que fazem de Nosferatu um convite ao cinema expressionista.


Os expressionistas, rejeitando os valores da sociedade burguesa e os conceitos tradicionais de beleza, fizeram de sua arte um instrumento de critica político social, deformando as figuras para extraírem uma visão pura e pessoal da realidade, com ênfase na solidão, na dor, nos horrores das trevas e guerras. A angústia e o medo, elementos primitivos, verdadeira expressão dos sentidos, são levados ao limite na pintura expressionista. Edward Munch, um dos mais conhecidos expressionistas, transcende esse limite, suas representações insurgem-se e invadem os olhos com obras plenas de um estilo errante e explosivo em dores, cores e sensações que acentuam o êxtase diante das sensações de sombras. Um trecho de diário de Munch, sobre a composição de O grito, revela esse olhar ao Expressionismo do qual é um dos principais representantes “Estava passeando aqui fora com uns amigos, e o Sol começava a se pôr - de repente o céu ficou vermelho, cor de sangue - Parei, sentia-me exausto e apoiei-me em uma cerca - havia sangue e línguas de fogo por cima do fiorde azul escuro e da cidade - os meus amigos continuaram andando e eu fiquei ali, de pé, tremendo de medo - e senti um grito infindável atravessando a natureza.” Assim revela-se ao mundo O grito, uma ode ao medo, a dor, ao horror, a realidade desfigurada diante dos sentimentos do ser.


O grito - Edvard Munch

Edvard Munch (Loten, 12 de Dezembro de 1863 — Ekely, 23 de Janeiro de 1944) foi um pintor norueguês, e um dos precursores do expressionismo alemão. Sentimentos sobre a doença e a morte marcaram a sua infância e sua arte. A mãe morreu quando ele tinha cinco anos, a irmã mais velha faleceu aos quinze anos, a irmã mais nova sofria de uma doença mental e uma outra irmã morreu meses depois de casar; o próprio Edvard estava constantemente doente. É claro que nem sempre a biografia do artista deve servir de guia ao que ele representa, mas fatos como estes assumem um significado mais vasto, transformados em imagens que deixavam transparecer a fragilidade e a transitoriedade da vida. Aos trinta anos ele pinta O Grito, considerada a sua obra máxima. O quadro retrata a angústia e o desespero e foi inspirado nas decepções do artista tanto no amor quanto com seus amigos. Toda a obra está impregnada pelas suas obsessões: a morte, a solidão, a melancolia, o terror das forças da natureza. O ambiente sombrio, os nus e retratos espectrais adquirem um aspecto quase simbolista, de traços praticamente insanos em "O vampiro", profundamente expressivo. Os temas desenvolvidos por Munch voltam-se à vida e a morte, ao amor, ao medo, ao ciúme e ao desespero. O artista representou, nesses quadros, as próprias experiências traumáticas na personificação do pânico pela vida e pela solidão do homem moderno.


O vampiro - Edvard Munch

Buscando inspiração nas pinturas antigas como renovação artística, baseando-se no poder de intuição e na criatividade sem freios, a obra de cunho expressionista revela imagens de múltiplos sentimentos. O interesse pela arte das crianças e dos doentes mentais, comuns na arte de vanguarda por serem manifestações espontâneas e não dependentes de uma aprendizagem acadêmica, revelam essa busca pelo estado primordial das emoções. Para a construção dessa representação, os artistas recorrem à distorção de rostos e ambientes, aos temas sombrios e ao monumentalismo dos cenários. Independente do período, da época e das influências, sempre haverá arte expressionista, desde que o belo seja revistado em busca da expressão e da sugestão.

Mesmo artistas não considerados expressionistas, podem apresentar, em determinados momentos, obras de magníficas expressão, como o pintor austríaco Gustav Klimt (1862 – 1918), Conhecido principalmente pelas representações femininas sensualizadas, criticado pelo erotismo de algumas de suas obras, constitui o auge de suas obras no chamado período dourado, mas é com a morte da sua mãe em 1915, que a sua paleta se torna mais sombria. Não se pode dizer que Klimt seja um pintor Expressionista, no entanto, além de criar quadros com uma textura intrigante, e assim como todo grande talento da humanidade, ter se rebelado contra as convenções de sua época, algumas de suas obras trazem essa deformação da realidade, esse olhar ao grotesco, ao que foge da luz e da cor, ao que está envolto em sombras e mistérios, tão ao gosto do Expressionismo. Gustav Klimt tem em Peixe de prata, um exemplo da sensação angustiante do expressionismo.



Peixe de Prata - Gustav klimt

No Brasil, em pleno auge do movimento modernista, por sinal, fortemente influenciado pelas vanguardas, a obra do artista Cândido Portinari apresenta uma fase de forte cunho expressionista, quando se volta ao sofrimento provocado pela natureza e pela desigualdade social, como o Nordeste é atingido por grandes secas que trazem conseqüências graves para os camponeses, a série Os Retirantes traduz essa cisão crua da realidade, o caos que gera a dor e o sofrimento, assim, o tema da degradação humana e a miséria, traspassam a face da família sofrida pela seca, em cada traço do rosto marcado, gretado como a própria terra, em cada lágrima derramada na pele onde os ossos insinuam-se, tem-se o Expressionismo, e a exploração da realidade terrível e dolorida.


Criança Morta - 1944

Tanto na Pintura quanto na Literatura, o Expressionismo revela-se por um estado de loucura, morte e destruição. Na literatura, o Expressionismo mostra a inspiração caminhando do espírito do escritor para o mundo exterior, encena um estado de desespero, e apresenta a sociedade em caos.

Os selvagens da Alemanha de Franz Maré, publicado em 1912 e o Expressionismo na poesia, de Kasimir Edschmid, de 1917, são textos que podemos considerar como manifestos expressionistas. Buscavam demonstrar as conseqüências da sociedade moderna nos indivíduos e que quanto maior era o sofrimento que o triunfo do homem. Os principais pressupostos de um fazer expressionista passam por um caráter de deformação da realidade de maneira subjetiva, em que a realidade aparece em seus aspectos mais terríveis e dolorosos, a valorização da subjetividade vista mais importante que a técnica, o uso de temas constantes como a degradação humana, a angustia, a miséria, a melancolia. A ânsia no absoluto e a consciência de que não o tem geram a somente a sensação de mal estar diante da vida.

Entre os principais marcos da estética expressionista, temos, (Helena. 1993 p.42,43):

• A derrocada do mundo burguês e capitalista:
• A denuncia de um universo em crise:
• A sensação de impotência diante de um mundo sem alma.
• Visões apocalípticas e negativas
• A ênfase na interioridade, no eu, nos sentimentos;
• A deformação grotesca do mundo;
• A ânsia do absoluto;
• A revolta dos filhos contra os pais, o choque das gerações;

É no clima de destruição e deformação, principalmente na caracterização dos ambientes e na tentativa de expor diferentes dores do ser humano, que o caráter expressionista revela-se mais abrangente. Na poesia, encontrou ecos, e diferentes poetas tentaram, cada qual com sua característica, expressar suas angústias e emoções. No Brasil, a poesia de Augusto dos Anjos, autor do livro Eu, de 1912, aproxima-se muito desse movimento.

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
Saio. Minh' alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Sua poesia, única e original, apresenta traços de puro expressionismo. Percebe-se em cada verso um clima de agonia universal, tão caracterizados pelos expressionistas. Em trecho de Queixas Noturnas, podemos ver a tristeza e agonia do poeta diante da vida, um sentimento de mal estar completo, como se a alegria, a vida e a saúde fossem o anormal, que a dor e a tristeza fossem o verdadeiro cotidiano.

Bati nas pedras dum tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza é minha única saúde.
A presença do grotesco, a visão deformada e um profundo mal estar, revelam um mundo em crise e sem perspectiva de solidariedade, como o ácido Versos íntimos, verdadeiro manifesto do pessimismo, oração dos descrentes e virulentos sentimentos de angustia diante da indiferença do mundo. A lembrança da morte vem sem freio, impulso e assombro diante da vida;

VERSOS ÍNTIMOS
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
As visões vão além de constatar a indiferença e a traição, é um apelo para que o cinismo e a vingança cinjam a proteção, atacar antes, prever cada torpe traição, e como? Traindo antes. No poema de tom forte, Dessa forma, a poesia de Augusto dos Anjos caracteriza-se pela atmosfera de dor e tristeza, o poeta procura expressar seus próprios conflitos e paixões, onde a palavras e vista como o fim de si mesma, e a liberdade de improvisação aparece na criação de forte apelo visual. E é marcante em a visão apocalíptica, negativa, de um mundo grotescamente deformado, que denuncia um universo em crise.

Tanto a poesia quanto a prosa expressionista pode comprimir ou expandir os sentidos, deformar as feições para ressaltar sentimentos, numa procura de imagens ou temáticas de profundidades emocionais e psicológicas, tais como o amor, o medo, a solidão, o desamparo, a alienação, ou a angústia. Sendo as obras expressionistas a mais pura expressão do eu, possuem como pressuposto que

A realidade não devia ser percebida em planos distintos (físico, psíquico, etc.), porque tudo se prendia a realidade em uma única forma: a expressão. O artista perdia controle da expressão, os elementos é que expressam a si mesmo. Se o mundo exterior era obscuro e alógico, também deveria ser assim a sua expressão. (TELES, 1983, p. 104)

Na literatura brasileira, a prosa de Guimarães Rosa apresenta, entre múltiplas e riquíssimas facetas, algumas destas características do Expressionismo. Em Sagarana, obra composta por nove contos, sendo que alguns destes são contextualizados em clima e ambiente expressionista "Nem uma nuvem no céu, para adoçar o sol, que era, com pouco maio, quase um sol de setembro em começo: despalpebrado, em relevo, vermelho e fumegante (307)." No conto “Conversa de bois”, podemos ver, por exemplo, esses aspectos relacionados à atmosfera de medo e angústia, assim como de descrença na humanidade Pior, pior...Começamos a olhar o medo...O medo grande...e a pressa...O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho...É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens, as coisas ruins são dos homens: tristeza, fome, calor — tudo, pensado, é pior (...) perto do homem, só tem confusão... (ROSA, 1984, p. 311)

Nesse conto, constantemente a presença da morte se faz anunciar, desde o início, uma vez que a própria historia se passa em torno da viagem em um carro-de-boi carregado de rapadura e do corpo do pai do guia, o jovem Tiãozinho, sendo que o condutor era o amante da viúva e cuja morte é extremamente desejada por Tião, injustiçado diante de Agenor Soronho, inconformado com a morte do pai, envergonhado de sua impotência diante dos fatos Chora-não-chora, Tiaozinho retoma o seu posto. É o seu pai quem está ali, morto, jogado em cima da rapaduras... Torna-se a cada momento mais palpável o desejo de vingança, e o prenúncio de morte se faz presente a cada linha, em cada pensamento de Tiãozinho percebe-se a ênfase na interioridade e nos sentimentos de dor e mágoa "Ah, da mãe não gostava!... Era nova e bonita, mas antes não fosse... que não tivesse mexida com outro homem nenhum... Ela deixava ate que o Agenor carreiro mandasse nele, xingasse, tomasse conta, batesse, (...)" e nas lembranças, nos momentos que caminhando o menino Tiãozinho relembra, cresce o sentimento de deformação, de revolta contra o universo "o pai gemendo no quartinho escuro, enquanto o Soronho estava lá perto da mãe, cochichando os dois, fazendo dengos, que ódio!..." (ROSA, 1984, p. 316)

Também o caratê grotesco, da deformação da realidade, da busca do horrível, do choque, se faz claro no conto, como se pode ver no trecho seguinte, a apresentação detalhista, mórbida, expressionista

Em cima das rapaduras, o defunto. Com os balanços, ele havia rolado para fora do esquife, e estava espichado, horrendo. O lenço de amparar o queixo, atado no alto da cabeça, não tinha valido de nada: da boca, dessorava um mingau pardo, que ia babujando e empestando tudo. E um ror de moscas, encantadas com o carregamento duplamente precioso, tinham vindo também” (ROSA, p.314)

Um ódio que rompe as barreiras do possível, que avisa e anuncia, e entre conversas de bois e murmúrios de uma alma sofrida, a vingança é uma trama urdida nas expressões de uma alma torturada e sofrida.

Enlameado ate a cintura, Tiãozinho cresce de ódio. "Se pudesse matar o carreiro... deixa eu crescer!... deixa eu ficar grande! Hei de dar conto desse danisco... se uma cobra picasse seu Soronho... se uma onça comesse o carreiro de noite... que raiva!..."(ROSA, p.324)


Ainda em Sagarana, no conto “A hora e a vez de Augusto Matraga” podemos identificar as características formais do Expressionismo, principalmente na liberdade de criação, na linguagem inovadora, na presença de metáforas exageradas, e é claro, na presença do medo, do desejo de vingança e a valorização do grotesco. O medo, que ao contrario do que invadia o jovem Tiãozinho em conversa de bois, e o deixada calado, solitário, neste conto manifesta-se como um medo quase coletivo, retrato da angustia e insegurança geral “ o povo não se mexia, apavorado com o medo de ficar na rua (...) com medo de falar, e de ficar calado, com medo de existir” (ROSA, 1984. p. 365).

O caráter de deformação da realidade e a manifestação do grotesco também surgem com força nesse conto, como se pode ver no trecho a seguir "A lâmina de Nhô Augusto trabalhava de baixo para cima, do púbis a boca-do-estomago, e um mundo de cobras sangrentas saltou ao ar livre, enquanto seu Joãozinho bem-bem caia ajoelhada, recolhendo os seus recheios nas mãos (...) nhô augusto punha sangue por todas as partes, do nariz e da boca...” (ROSA, 1984, p. 384)

O mal estar de gerações revela-se na arte, tanto em linguagem renovada, quanto em temas que podem chocar, angustiar, impressionar, mas que em ácida verdade, podem ser parte da realidade da dor e do sofrer, e o Expressionismo sempre encontrará ecos em diversas manifestações artísticas que são a expressão subjetiva do artista, independente de razão ou fantasia,

Sendo assim, arte expressionista se faz portadora de um lamento de agonia pela falta de sentido com que por vezes se defronta o ser humano, seus conflitos e paixões, e por isso, tanto na prosa, na pintura, e na poesia, contam de um mundo em decadência, de lamento e dor, caracterizando-se por ser uma tendência fortemente desenvolvida, independente do estilo ou período literário, que representa tão bem o homem em crise.


Referências


ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martin Claret, 2001.

HELENA, L. O Expressionismo. In: —————— Movimentos da vanguarda européia: margens do texto. São Paulo : Scipione, 1993, p.37 – 44.

ROSA, J. G. Sagarana.31 ed. Rio de janeiro: nova fronteira, 1984 .

Um comentário:

André Bozzetto Junior disse...

Excelente artigo! Adorei! Parabéns!

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