21 de out de 2010

Lendas não tão urbanas




A história é de chocar. Uma garota deslumbrante. Uma noite que parecia perfeita. Mas quando o sol nasceu, o jovem que despertou em uma banheira estava coberto por gelos e cortes indicavam o que o bilhete comprovara: tivera os rins roubados. Em outro cenário, uma garota se levanta e vai ao banheiro para retornar aos gritos, pois uma loira com algodões no nariz, na boca e no ouvido a esperava. São inúmeras as narrativas desse teor - cada qual com suas características – que se espalham pelo mundo de forma surpreendente. São as lendas urbanas: narrativas fantásticas que se apóiam em testemunhos reais, apesar de jamais o narrador ter sido a vitima e sim conhecido de alguém que jura ter vivenciado o fato, são contadas como verdades absolutas. Assim surgem as lendas urbanas.



Qual a origem dessas lendas? As respostas são inusitadas, algumas explicações são também lendas, outras são jogadas de marketing. Independentes de existiram tais personagens e fatos ou serem apenas o reflexo da fragilidade humana, as lendas persistem. E o fascínio por elas também.

Das conversas ao redor da fogueira aos murmúrios das lendas urbanas, o medo continua sendo um estopim para sentimentos variados. Reações físicas e psicológicas se misturam perante o insólito, causando efeitos como a mais forte adrenalina à paralisia dos sentidos. Ocasionalmente, o sombrio abandona a arte e parece tornar-se realidade.

Muitos mitos da literatura fantástica, principalmente de terror, espalharam-se pelo mundo como lendas inspiradas em fatos reais, fatos cercados por mistérios e ausência de explicações lógicas. Ataques de vampiros serviram como justificativas para epidemias e pestes. Feras incontroláveis justificaram a presença de lobisomens. Histórias de ninguém, histórias de todo mundo, as narrativas orais que sempre permearam o imaginário popular. Algumas se tornam tão conhecidas que perdem o misticismo, mas ainda assim, assustam pelo que apresentam de desconhecidas, incontroláveis.

Diferente do texto puramente literário, as lendas influenciam diretamente o comportamento das pessoas. Algumas apresentam ainda um caráter moral: é preciso atenção e cuidado com estranhos, experiências podem invocar seres sombrios e incontroláveis.

Mas o caráter urbano dessas histórias e a rapidez com que se propagam na atualidade refletem uma realidade interessante, a influência da tecnologia neste cenário não impede a crença no insólito, ao contrario, fomentam a evolução das lendas. Na era da informação, os monstros migram com tranquilidade e ganham respaldo universal. Os tempos mudam e os medos também. Ainda assim, o horror que nos paralisa no cotidiano absurdo de violência e insegurança revela-se nos ladrões de rins, nos vírus incontroláveis, nas abduções, aparições, fantasmas, vampiros, lobisomens, etc. Feras a espreita para cobrar, apagar, deletar, tomar, dilacerar...

As lendas urbanas são histórias que apavoram, que se ausentam do caráter literário para ser o motivo de comoção e exageros diversos quando assombram determinada população, entretanto, não são tão novas. Algumas histórias remontam a épocas ancestrais. Os terrores da exploração, da pobreza, da miséria e da opressão resistem e buscam um escape em narrativas insólitas, fatos sem testemunhas, que aconteceram com alguém que alguém conheceu, em algum lugar onde alguém esteve... Narrativas inspiradas na crença e no medo dos demônios, fragmentadas ou marcadas pelo exagero e pelo pânico, elas sobrevivem, pois o medo se alimenta do mistério, do inquietante, do inesperado a espreita nas sombras. Sobrevivem porque o homem tem medo e o medo é o mais forte dos sentimentos. Sobrevivem pois, perante o inquietante ou insólito, que frágeis seres nós somos.

Um comentário:

Blyef disse...

Achei interessante e esclarecedor... Lendas são fascinantes e, parte delas, se não existissem, não inspirariam tantos. Gosto de pensar que há um mundo só delas, das lendas... E quando a noite cai, elas não nos fazem mal, mas ficam espreitando das sombras projetadas sob a luz fraca da noite, fortes o suficiente apenas para nos manter supersticiosos

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