20 de out de 2010

O medo, o homem e a literatura - Tânia Souza


O medo, o homem e a literatura

Por Tânia Souza
"A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.”
( H. P. Lovecraft )

A literatura é uma arte de constante provocação, de pura inquietação. Provoca a beleza, provoca o espanto, encanta, surpreende, recria e cria. Leva de leve pelas mãos e inesperadamente joga o leitor entre sombras de dor ou lago de risos. Com ela, sentimentos como o amor, a raiva, o ciúme, a esperança, a tristeza, a alegria, o desejo, a inveja, a amizade e tantos outros, recontam a historia do homem. Seres comuns, divinos, fracos, homens, bichos e deuses, meros objetos, nada nem ninguém passa impune, ou imune, pela obra literária.
  
O poeta, o escritor, o romancista, aquele que tem em mãos o papel, o lápis, o computador, e nos pensamentos uma inquietação, uma eterna procura, é ele o demiurgo, o criador e a criatura das palavras. Escuta os sussurros das épocas, dos homens, da vida e desenha com seus vocábulos um universo, o texto.
  
Entre os sentimentos que caminham junto ao homem, é o medo, ao lado do amor, um dos sentimentos mais constantes. E do medo a literatura fantástica suga cada suspiro, transformando em verso ou prosa cada bater de um coração assustadiço. Quando fala-se em literatura sombria, fantástica ou mórbida, uma questão que incomoda, e por isso importante, por parecer ainda enigmática e sem solução, é a aparente dicotomia entre terror e horror. Ambas arrepiantes, ambas controversas.
  
Há, de fato, a necessidade de se optar por uma delas quando a pretensão é escrever sobre o gênero. Após algumas pesquisas e leituras sobre o assunto, a questão ainda é um entrave, que parece ainda maior entre escritores e críticos da literatura de terror/horror. A princípio, o horror parece ser uma reação física ante o medo, ao sobrenatural, ao desconhecido, a ameaça e crueldade da realidade. Nos dicionários comuns, a definição das mesmas parece convergir, vejamos algumas delas:
   
Terror sm. 1. Estado de grande pavor. 2. Grande medo ou susto.
Terror sm. 1. Estado de grande pavor ou apreensão. 2. Pessoa ou coisa que espanta, aterroriza.
Horror sm. 1. Sensação arrepiante de medo, de pavor. 2. Receio, temor. 3. Repulsa, aversão. 4. Aquilo que inspira horror.
Horror sm. 1. Atrocidade, barbaridade. 2. Que causa pavor. 3. Grande medo, pavor. 4. Repulsa; aversão.
  
Alberto Manguel (2005, p.10) em sua coletânea Contos de horror do século XIX, cita Ann Radcliffe, na tentativa de definir essa conturbada relação entre terror e horror “O terror e o horror possuem características tão claramente opostas que um dilata a alma e suscita uma atividade intensa de todas as nossas faculdades, enquanto o outro as contrai, congela-as, e de alguma forma as aniquila”. Edgar Alan Poe e Lovecraft, mestres da literatura sombria, inspiram algumas dessas dicotômicas definições. O terror de Poe seria mais explicito, em Lovecraft, sugerido, inominável, de fato, oculto. Entende-se explicita não a falta de suspense ou mistério, e sim a capacidade de mostrar ao leitor o cadáver, podridão, a tortura, a loucura. Medos reais e concretos, ainda que misteriosos. Lovecraft, ao descrever o terror, ou apenas ao sugerir cenas tão terríveis que não poderiam ser descritas, oculta aos olhos do leitor esse pavor absoluto, para o autor, a “atmosfera, não ação, é o grande desiderato da ficção fantástica. Com efeito, uma história de espanto jamais será senão uma pintura viva de certos tipos de estados de espírito humanos”, assim, o  horror pode ser sanguinolento, chocante. O terror, indizível assustador.
  
No entanto, Poe jamais poderia ser lido senão como um mestre do suspense, estando novamente assim as contradições das definições. O horror mostraria ao homem um universo que se esconde, que a imaginação, em momentos inesperados, consegue conceber, e temer. O terror é a incerteza, a angústia de esperar pelo que vem depois do corredor escuro, é o que rege a condução lenta e inexorável ao mundo sombrio. Mas, o terror gera o horror? Ou o horror gera terror? Não são ambos assustadores? Mais que respostas, neste trecho fica a indagação, a pergunta no ar, e a construção do conhecimento debatendo-se entre uma e outra definição. Para esta autora, ainda inconclusa esta dicotomia, sendo, pois, ambos os sentidos interligados de forma intima.
  
As obras que trazem o terror e o horror como temas revelam que podem mesclar-se em momentos diferentes, uma determinada cena ou ação traz o aspecto do cruel e do estranho, do enigmático e do grotesco, mas na linha mestra do terror, persiste a atmosfera enquanto que no horror, o choque e o espanto. 

Em temas literários, falar em literatura de terror é sondar o medo, e os temores que rondam o homem. Teme-se ao conhecido, ao sangue que pinga dos jornais, às guerras, à loucura. Teme-se também ao desconhecido, ao exótico, aos mistérios e fenômenos sem explicações, estes, principalmente estes, sempre assustaram.
Do que o homem tem medo? Alturas, o escuro, adoecer, insetos, solidão, monstros reais ou imaginários, a insanidade, fantasmas, os vivos, os mortos, bandidos, morrer, viver, espíritos, os seus próprios fantasmas, a sua imaginação. Tudo que apavora, que sussurra um fuja imediatamente, ou que paralisa na angústia do horror absoluto é o medo. Esse medo pode ser comum, raro, misterioso, ridículo (aos olhos de quem não o sente, é claro), insano ou cruel.


O que o ser humano é capaz de fazer para enfrentar os seus medos, aliás, onde buscar coragem para enfrentá-los? O que fazer então para não torná-los parte da realidade, para não tomarem a essência de cada ser? A paralisia, a fuga, os sentidos e reações confusos e assustados esperam a resposta. E como nem sempre ela vem, a conseqüência dessa ausência pode ser inimaginável.Se a Literatura questiona, reflete ou revela o homem seus sentidos, amores e dores, também revela os seus medos. E a morte é um dos principais medos que a humanidade enfrenta, é no terror da morte que o gênero terror mais resplandece em suas sombras. Na historia do ser humano, a morte é a aproximação do inexorável, oprimindo os sentidos e sentimentos, pode ser temida, pode ser ignorada, pode ser desejada. Entretanto, mais que a morte, o que vem depois dela parece ser a grande perturbação do homem.
  
A morte e seus mistérios sempre causaram inquietação. E dessa inquietação, os causos, os sustos, as inesperadas aparições, tudo transforma-se em um instigante gênero, a literatura de terror, de suspense, fantástica, assustadora ou surpreendente.
  
No conto A mão do macaco, de W. W. Jacobs, a morte e as tentativas de vencê-la acabam gerando um terror infindo, uma mão seca e mumificada, traz consigo o poder de realizar três desejos, mas o preço pode ser terrível. 
   
“o rosto de sua mulher lhe pareceu mudado quando entrou no quarto. Estava pálida e sôfrega, e, para aumentar a sua inquietação, tinha um aspecto sobrenatural. Sentiu medo dela. ‘Ande, faça o pedido’, ela ordenou, com voz forte. Ele hesitou ‘é loucura, uma crueldade. ’ ‘Peça’, a mulher repetiu. Ele ergueu a mão do macaco. “Eu peço que o meu filho viva novamente”
 
Desse ponto em diante, o que a mão do macaco trouxe à família, somente a leitura do conto pode dizer. No entanto, são clássicas na literatura as tentativas de dobrar a morte, Frankenstein de Mary Shelley, um dos mais complexos, amado, temido e sentido monstro da literatura de terror, revela esse desejo oculto, e as conseqüências desse querer. O romance nos leva à saga do jovem cientista Victor Frankenstein, que constrói em seu laboratório uma criatura, um monstro feito com pedaços de corpos e metais, cadáveres e molas, tentando recriar o ser humano. Quando por fim a criatura vive, horrorizado com o seu feito, o cientista foge, abandonando a sua obra, ou como dizem, o seu filho. Este romance inspirou uma imensidão de obras do gênero em terror, e sempre pode ser considerado atual, pois a morte, e as tentativas de vencê-la não se esgotaram na ciência, tampouco na literatura. E gera medo. O temor da ciência, do desconhecido, do poder sobre a mais invencível das muralhas, a Morte.
  
Entre tantos conceitos que permeiam a literatura fantástica no gênero terror, é preciso considerar que, na medida em que o texto literário embriaga-se destes temores, não está, como julgam tantos, divulgando, promovendo, instigando ou influenciando a insanidade, a irracionalidade do ser humano. A ferida quando exposta, a chaga sangrando é o alerta, a denuncia, e principalmente, o alívio, o alívio da tensão, do dia, da noite insone, da noite solitária, do não, do sim, do cotidiano esmagador, do que não se explica, do que dói sem nem sempre saber o porquê. Este alívio das tensões é o desabafo, a catarse.
  
É na literatura dita macabra, em cada página, letras e textos oriundos da mentes sensíveis ao sombrio que o homem pode reencontrar-se consigo mesmo, com os fantasmas que o perseguem, ainda que seus olhos levantem-se inquietos, e até mesmo o silêncio o assuste enquanto lê, a segurança do distanciamento promove o encontro, a busca, o desafio, até mesmo a indiferença de múltiplas emoções. 
O medo, quando explorado na literatura, reflete as sensações enfrentadas na vida dita real. A função catártica da literatura é a purificação, o sentimento de alivio, de expurgar a angústia das situações de tensão. O texto literário pode ajudar o indivíduo a conhecer-se e a conhecer a sociedade em que vive. O homem precisa, mais do que nunca, saber ao que teme, e toda a sua complexidade reflete-se nas letras.
  
Questiona-se, no entanto, se essa exposição constante não o tornaria indiferente, insensível à dor que porventura verá. Será então que o aumento da violência traz insensibilidade? Estamos insensíveis ao horror? O ser humano tornou-se embrutecido ou essa brutalidade sempre esteve ali? O que leva uma pessoa a interessar-se por acidentes, brigas, ou outras cenas mórbidas? Programas e filmes que exploram a violência ganham em audiência, notícias macabras, atos mórbidos seduzem a curiosidade e atenção de toda uma nação, e nem por isso, saem repetindo os atos assustadores que presenciam. Assim, quem não gosta de histórias de terror, alimenta o seu medo em outros campos.
  
Não há verdade absoluta, tampouco para as perguntas acima, o que nos sensibiliza passa pela historia de vida de qualquer pessoa, e em cada resposta, única e pessoal, pode estar presente o conceito da catarse, no alivio, no reconhecimento de estar a salvo, distante e vivo. Ainda que aterrorizado.
  
A catarse está no repouso após a febre, e quando não explora o indizível, mas volta para o cruel, talvez ali esteja o desejo de sacudir, despertar o leitor, acordar o homem da indiferença que o toma, pois o medo sufoca, e uma das opções seria tentar afastar-se, separar o que nos causa repulsa é humano e histórico que o desconhecido agride, mas jamais pode-se fugir do medo. A própria sabedoria popular nunca deixou a o suspense se perder, não se deixa as historias de medos perderem-se, e cada ato ou momento de terror ou suspense, permanece lembrando ao homem a sua pequenez. O Futurismo, movimento de vanguarda, mesmo não tratando de literatura de terror, tem esse aspecto de dar a bofetada, de agredir, de sacudir para acordar, e nesse sentido, aproxima-se de algumas histórias cuja crueldade podem ser esse soco, essa bofetada, esse amor ao perigo.
   
“Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. [...] Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar”.
 
Em O cobrador, conto de Rubem Fonseca (1979), em uma escrita seca, ácida e urbana, somos convidados a uma mente criminosa e doente de ódio. Nas cidades, a névoa, os becos, as sombras, a solidão, a insanidade, a violência, a dívida de sangue da sociedade, a indiferença e a crueldade são alguns dos elementos que propiciam o ambiente de terror. O terror descarado, angustiado, sangrento, cruel, espirrando sangue e dor no leitor 
   
(...) Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava a queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa”(...) Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho. Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.
  
Neste mesmo conto de Rubem Fonseca (1979) é a crueldade o principal mover dos fatos, assim como a dor, a angústia da inadaptação, da insanidade, e por fim, de uma estranha missão, do humano animalizado, bestial, como podemos ver em cada ato do cobrador, “Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.” O conto não trata exatamente do terror convencional, mas sim do horror de uma sociedade inesperada, do ódio, da morte, dos jogos de poder entre razão, emoção e sociedade. A paz aparente de quem cruza a rua, vivendo os seus dias com a efervescente mornidão que o cotidiano impõe, pode, de repente, ver-se frente a um cobrador. Toda tranqüilidade rompida em sangue, dor e asfalto derretido. Assim, enquanto o terror explora o indizível, o que inquieta e oculta-se, o horror sangra, causa repugnância, nojo e pavor.
  
O terror representa o rompimento com o que era dito normal, a aparente estabilidade interrompida. Em um momento de paz e tranqüilidade não há espaço para o medo, porém, quando essa tranqüilidade se vai, o espaço que antes era calmaria torna-se em segundos uma realidade que aperta e esmaga os sentidos. Assim, a um vulto vislumbrado, a um som que não se explica, o coração acelera, a pele arrepia-se, os instintos gritam silenciosos, eis o medo, eis o terror. Ainda que depois o vulto se descubra em moveis, os ruídos em normalidades de um cotidiano, o medo marcou a presença. Vive-se o medo, lê-se o medo. Nas historias de terror, o medo traduz-se em seres e lugares enigmáticos, seres malignos, fantásticos, espíritos, fantasmas, feiticeiros, bruxos, monstros cuja aparência pode ou não refletir a crueldade de seu intimo.
  
E em cada local, insurgem-se os velhos castelos, casas abandonadas, catacumbas, florestas, ruínas, casebres, o mar, as montanhas, o inferno. Também os mistérios da ciência, as ousadias dos homens em busca do conhecimento, os seres misteriosos, magia, geralmente, são estes os aspectos básicos da literatura de terror. 

A hora do medo é noturna, desamparada, desconhecida, pois em meio às sombras da noite que o feio, o assustador, o espectral revela-se. Assim, não é por acaso que uma grande parte dos contos e histórias de terror têm na noite o seu cenário ideal, a noite misteriosa, sugestiva, silenciosa, solitária, vaga, onde tudo acontece, opõem-se a claridade do dia, da conturbação do ir e vir, das tarefas sempre exigindo atenção. É na noite calada que os sentidos alertas podem ver e ouvir o sombrio. Edgar Alan Poe (1975) um dos mais inquietantes escritores do gênero sombrio, em “O coração denunciador” mostra como poucos como a noite pode ser terrível e assustadora: 

“Todas as noites, por volta da meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e abria-a... Oh! Bem devagarinho! E depois, quando a abertura era suficientemente para conter minha cabeça, eu introduzia uma lanterna com tampa, toda velada, bem velada, de modo que nenhuma luz se projetasse para fora, e em seguida enfiava a cabeça. (...) Movia-a lentamente, muito, muito lentamente, a fim de não perturbar o sono do velho. (...) E depois, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente... Oh! Bem cautelosamente!... Cautelosamente... Por que a dobradiça rangia... Abria-a só até permitir que apenas um débil raio de luz caísse no olho de abutre. E isto eu fiz durante sete longas noites... Sempre precisamente à meia-noite... (...) E todas as manhãs, sem temor, chamando-o pelo nome com ternura e perguntando como havia passado a noite...”
 
Os segundos de espera, os olhos espreitando a réstia de luz, o coração batendo furioso, traduzem um dos momentos mais angustiantes da literatura. E ao amanhecer, a negação, a luz limpando qualquer resquício de uma noite de pavor insano faz da mesma o insano aflorar da loucura, do medo, da crueldade. A razão e a emoção, uma das mais antigas luta dos homens, mostra o poder do medo, pois quando ele vem, a razão desaparece. E o que leva embora assim tão rápido a razão? Um vulto no escuro, ruídos em horas silenciosas, pesadelos, a própria realidade, a morte, a guerra, a solidão. Um ruído na noite, e o terror faz-se absoluto E o velho saltou na cama gritando: "Quem está aí?" (...) ele ainda estava sentado na cama, às escuras (...) seus temores foram crescendo. Tentara imaginá-los sem motivo mas não fora possível. Dissera a si mesmo; "É só o vento na chaminé” ou "é só um rato andando pelo chão", ou "foi apenas um grilo que cantou um instante só": sim, ele estivera tentando animar-se com essas suposições. Ainda em “O coração denunciador”, Poe nos leva a acompanhar o pavor de quem teme, sozinho no escuro, mediante um vulto, a uma presença inexplicável, e as justificativas desesperadas em busca de uma explicação.

Mas é no poema O Corvo, (BARROSO, 2000) uma obra prima da composição poética, perfeita combinação entre solidão, lirismo, sombras e medos, que a presença da noite, do inexplicável fascina leitores de todas as épocas, Poe, sobre esse poema, escreveu também “A filosofia da composição”, texto em que mostra passo a passo como surgiu esse poema que marca gerações com sua dor e beleza. Desde a escolha de um primeiro verso que pudesse causar impacto, e que tivesse musicalidade e semântica incomparável, do ambiente noturno, do lirismo e força da palavra escolhida “nevermore” no Brasil traduzida por “nunca mais”, até os últimos segundos do nascimento e criação, árdua criação, de sua mais bela composição poética.  

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,/ A ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,/ E, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,/ Tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar/. "É alguém — fiquei a murmurar — que bate à porta, devagar;/ Sim, é só isso e nada mais”. Instaura-se assim um ambiente propício, noturno, onde os pensamentos estão prontos para a sugestão, mescla de sonho e realidade, silêncio e solidão, um som quebra a monotonia, e em seguida, as buscas por explicação De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia/ E a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo./Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo./É apenas isso e nada mais e aos poucos, perde-se a razão, o medo, o desejo e a loucura aceita tranquilamente o que o coração temia ou pedia. Impregnado das sugestões da noite, ardendo em saudades de Lenora, destina-se ao eterno nunca mais, nunca mais. 

"Profeta!” exclamo. "Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernalPelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais,Fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,Verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,Essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!" E o Corvo disse: "Nunca mais!"
 
A certeza da eternidade sem a mulher amada, a certeza que a ave respondia ao seu apelo por respostas, tudo se perde em meio às sombras de uma sala onde este corvo não sairá, não sairá nunca mais.

Ainda sobre o ambiente sombrio da noite, em “O travesseiro de penas”, impressionante conto de Horacio Quiroga, temos como personagens um jovem casal, Alicia e Jordán aprendendo a fragilidade de um relacionamento, no cenário, a força de uma casa que parece ter vida, Ela o amava muito (...) Ele, por sua vez, a amava profundamente, sem demonstrá-lo (...) A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância” as difíceis emoções de uma moça frágil, a súbita realidade do casamento, e Alicia acaba adoecendo.

Mas, neste aparente e cotidiano narrar, esconde-se um sufocante mistério, e a morte parece ser o caminho inexplicável Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Insanidade, sofrimento, uma alma impressionável? Alicia tornava-se a cada dia mais frágil, fraca os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê, e mais uma vez, a noite, a sugestão do que não se explica, torna este um dos contos fantásticos que fascina, cujos sentidos e interpretações jamais se esgotam, e assim, a cada dia que raiava, temos a jovem Alicia em esperanças de recuperar-se, pois durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. Mas fechemos as portas, e deixemos assim ocultos o marido, os médicos, a criada e a jovem Alicia as voltas com os mistérios de uma noite que sugava a fonte de vida.

Na estreita simbiose entre o terror e o indizível, na incerteza perturbadora desfragmentando o que era dito normal que encontra-se o fundamento básico do gênero terror e os inesperados caminhos do medo. É a força da sugestão! Umberto Eco, no obrigatório prazer de A história da feiúra, revela no terror uma das estéticas do feio, e do fascínio que nos oferece, e através do termo umheimliche, propicia o entendimento de como esse ambiente, esse silêncio repentino, essa quase que imperceptível mudança no ar pode ser mais aterrorizante que a própria aparição de um monstro. No capitulo XI, denominado O inquietante, apresenta ao leitor o conceito desse termo, o que conduz ao medo é o que rompe a aparente naturalidade, a aparente harmonia das coisas, sem que consigamos explicar, tem nesta definição a noção que já circulava na cultura alemã há tempos e Freud havia encontrado num dicionário a definição de Schelling, que reza que umheimliche é tudo que deveria permanecer secreto, escondido e, no entanto, reaflora (...)”. Também podendo ser entendido como estranho, estrangeiro, sinistro, suspeito, desconfortável, horrendo, demoníaco, etc...

Reafirma assim a importância da suspeita, da sugestão como mais assustadora que a certeza, e nessa sugestão, nessa criação do ambiente assustador, macabro e inesperado que mora o efeito intimo e surpreendente da boa literatura de terror. Conforme Eco, o que é pior? A certeza de um vampiro, ou a suspeita do vampirismo de alguém? Mais que mostrar, o verdadeiro terror insinua, é o cume, é a sombra, a mancha, é do iceberg a ponta, á noite em vez do dia, é o leve ruído em vez do grito profano, é essa sugestão, essa suspeita que instaura o umheimliche, e deixa oculto o que mais nos apavora, o desconhecido que se o víssemos, não mais resistiríamos.

Tzvetan Todorov, em sua Introdução a Literatura Fantástica, obra de referência quando o interessa é o inquietante mundo do terror, define o fantástico como o espaço da incerteza.
Chegamos assim ao coração do fantástico. Em um mundo que é o nosso, que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros se produz um acontecimento impossível de se explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Que percebe o acontecimento deve optar para duas soluções possíveis; ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto da imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então esta realidade está regida por leis que desconhecemos. (p. 16)
 
O terror mostra ao homem um universo que se oculta, que se esconde dos olhos cegos, e revela mundos e seres que a imaginação apenas ousou esboçar em momentos de angústia e sombras. Para Lovecraft, “a ênfase maior deverá ser dada à sugestão sutil - imperceptíveis insinuações ou toques de detalhes associativos, bem selecionados, que expressam nuances de estados de ânimo e constroem uma vaga ilusão da estranha realidade do irreal”, e assim, o espaço no qual o homem vive esconde mistérios, a sordidez, a raiva, a loucura e sentimentos inomináveis. O texto literário, quando tem no horror a sal matéria, corta a carne e expõe a ferida, e, ou aprende-se a lidar com seus fantasmas, ou torna-se o homem apenas personagem de mais uma saga.

Ítalo Calvino, em Se um viajante numa noite de inverno, traduz a íntima relação entre texto e leitor, e tal qual o Leitor, o personagem principal as voltas com a sua função de leitor, nos descaminhos de cada leitura é que se faz o mais instigante convite a leitura: escolha a posição mais cômoda: sentado, estendido, encolhido, deitado. Deitado de costas, de lado, de bruços. Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de balanço, numa espreguiçadeira (...) pode também ficar de cabeça para baixo, em posição de ioga... (1999, p. 11), e é este convite que fazemos agora, venha e comece enfim seu mergulho nos contos fantásticos, verdadeiros retratos do ser humano. A literatura fantástica, no gênero terror, repleta de seres malignos ou apenas incompreendidos que continuarão eternamente a povoar a mente do homem, seguirá em seu caminho de sombras, revelando o oculto a quem quiser, ou tiver coragem, para conhecer. As portas da catacumba estão abertas, ouse, leia e viva.


Referências 

BARROSO, Ivo (org). O Corvo e suas traduções. São Paulo: Nova Aguilar, 2000.
CALVINO, Ítalo. Se um viajante numa noite de inverno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ECO, Umberto. História da feiúra. Rio de janeiro: Record, 2007.
FONSECA, Rubem. O cobrador. Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1979. JACOBS, W. W. A mão do macaco. In:
MANGUEL, Alberto. Contos de horror do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
LOVECRAFT, H. P. Notas quanto a escrever ficção fantástica. Tradução de Renato Suttana. Disponível em http://www.arquivors.com/notas.htm. Acesso em 06 de mar 2008.
MANGUEAL, Alberto. Contos de horror do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
POE, Edgar Alan. Histórias extraordinárias. Círculo do Livro, 1975. QUIROGA, Horácio. O travesseiro de penas. In:
MANGUEL, Alberto. Contos de horror do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Um comentário:

Anônimo disse...

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