2 de dez de 2010

Mau-Olhado: A Tragédia Rondava a Casa de Júlia - Peter Straub


"Uma casa, uma mulher, uma criança e a força do passado"

Mau-Olhado: A Tragédia Rondava a Casa de Júlia, ou simplesmente Júlia, é uma novela carregada pelo terror psicológico, uma história de pessoas e personalidades, casas, fantasmas  e vingança. Júlia é bonita, rica e extremamente complexa. Com largo histórico de submissão, primeiro ao pai, depois ao marido, é uma personagem abalada que, buscando uma nova vida, compra uma casa em um dos parques mais nobres (e supostamente tranquilo) de Londres e tenta cortar relações com o passado.

No entanto, a partir do momento que entra nessa casa, percebe-se, personagem e leitor, que nada ali será comum. Um local marcado pela tragédia e uma dúvida: certas casas seriam mesmo tão densas a ponto de guardar consigo as impressões de todos os seus moradores? Ou seriam as pessoas que carregam consigo a sugestão para tal percepção?

Mas quem é de fato Júlia? Uma mãe traumatizada com a morte da filha Kate, fugindo de um marido dominador e infiel, começa a ver e sentir estranhas sensações na nova residência, um local tão marcado pela tragédia quanto ela. Quando as visões e eventos sobrenaturais afetam sua realidade, de forma violenta e aparentemente sobrenatural, não lhe resta opção a não ser investigar o passado da casa e por consequência, o seu. Há algo muito errado com a casa de Júlia...   A atmosfera de medo e suspense substancia-se na narrativa com a "inocente" presença de uma criança na vizinhança, e o inquietante mostra sua face. Entretanto, nem tudo que é percebido pela sensibilidade aguçada da moça pode ser considerado de fato real.

A presença da criança, por sua declarada não-inocência, é o ponto alto da narrativa. O que há de mais cruel que a maldade impressa na face de uma criança? Straub carrega nesses traços com maestria. Principalmente por um pequeno detalhe, seria de fato essa menina real? É visível que o trauma de Júlia  tenha alterado seu senso de realidade, cercada pelo sentimento de culpa, por medo, vislumbra nestes eventos uma vingança do passado, e eis o ponto forte de Straub, a oscilação entre o real e o imaginário, a força do terror psicológico. 

O suspense, linha mestra do autor, é bem marcado na narrativa. Destaque ainda para o enredo que surpreende.

Poderia ser um clássico do terror, mas no desenvolvimento da novela, a narrativa parece ter se perdido.  Faltou o toque de mestre do autor, tão presente em Os Mortos-vivos. A narrativa tão bem conduzida até certo ponto, perde-se em meio aos devaneios dos personagens.

Talvez estivesse esperando mais desse livro. No entanto, sendo fã incondicional de Straub,  leitora apaixonada do gênero terror, fiquei com a impressão que Júlia se perdeu no caminho.


3 comentários:

Alfer Medeiros disse...

Essa é a desvantagem de se escrever algo genial como Os Mortos Vivos (Ghost Story): todos os outros trabalhos serão balizados por ele!
Se bem que o mediano do Peter Straub é muito melhor do que o máximo que muitos autores conseguem conceber!

Tânia Souza disse...

Oi Alfer, então, já li alguns comentários que Júlia foi quase um ensaio para Ghost Story, agora estou lendo Talismã, vamos ver o que vem por aí.
Obrigada pela visita!

Moisés de Oliveira disse...

Tomara que Julia faça o que Ghost Story não fez: ser um bom livro de terror, no mínimo.
Sinceramente, Ghost Story, é uma decepção; Assisti ao filme e comprei o livro imaginando ser ainda melhor (o que geralmente acontece com adaptações), porém foi a pior novela de terror que li, a história é desconexa, ambígua, se fosse realmente uma HIstória de Fantasmas, como o filme o é, seria realmente um sucesso. Talvez por isso não foi mais publicado no Brasil. Vou ler Julia e espero que seja melhor, senão vou ter que apelar para O Talismã, que foi escrito em parceria com Stephen King.
Ambas as premissas (Julia e Ghost Story)são ótimas: fantasmas, casas antigas e assombradas, pessoas taciturnas solícitas às presenças sobrenaturais, uma atmosfera densa e perturbadora, porém de Ghost Story, vou guardar apenas as lembranças do filme, que deveria ter inspirado o livro, e não o contrário.
Até.

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