17 de mai de 2011

Das letras, da Memória... E de como morrer nos livros me fez tanto bem


Das letras, da Memória... E de como morrer nos livros me fez tanto bem

Essa menina morre nos livros! Cresci ouvindo essa expressão, e sim, eu mergulhava de tal forma na leitura que andava por caminhos desconhecidos, mas não era morrer e sim viver, reviver, re-nascer a cada página. Perdi a conta de quantas vezes fui questionada sobre o porquê de gostar tanto de ler. As respostas? Mudam conforme o dia, o livro, a vida. Mas hoje me pergunto, por quê? Por que eu e tantos outros gostamos de ler? Leio por gosto, está claro, mas quando começou minha história de leitura? Os livros sempre fizeram e farão parte da minha vida, portanto, pensar a minha história de leitura é pensar minha existência, quem sou e o que vivi. Viajar no tempo, rever meus cachos embaraçados à sombra das árvores. Os cabelos ainda embaraçam às vezes, porém as árvores ficaram no quintal da infância, e a minha história de leitura ficou no entre o que se vive, o que se lembra e o que somente um aroma pode recordar.

Em uma cidade pequena, cidade fronteira, cidade do interior - onde o entardecer parece ter um tom especialmente melancólico – nasci e passei a adolescência. Ainda criança, descobri no livro um amigo sempre disponível para me acompanhar e mesmo nas lembranças mais antigas, nos quadros mais significativos da infância, posso identificá-los. Hábito que permanece, na minha bolsa sempre há espaço para um livro. Não pensem possíveis leitores que sou uma
leitora ideal, que já li todos os clássicos. Ao contrário, ainda tenho muito o que ler. Li o que o mundo me ofereceu e o que aprendi a buscar, algo aqui, algo ali. E de alguma forma, essas leituras tornaram-se parte de quem sou.



Cresci em uma casa de madeira cheia de quartos e varandas e, o que mais gostava, o meu amado quintal. O que há nas imagens poéticas da infância que o fez tão grande naqueles dias? E hoje quando eu o revejo, meus passos não mais encontram o mundo que ali vivi.

Impossível não sorrir ao lembrar das minhas maiores riquezas da época, sim, eu era rica e minhas posses eram enumeradas, admiradas e, não me condenem, exibidas. Quando alguém tinha uma riqueza que eu não possuía, era a admiração, as trocas. Minhas riquezas eram arvorais, sim, as árvores: mangueiras, jabuticabeira, goiabeira, laranjeira, limoeiro, cajueiro, pitangueira, abacateiro, “aguapomba” ou pitomba, (não sei outro nome, só que era uma delícia) e o pé de mexerica do vizinho, meu por empréstimo, era fazer uma fresta na cerca e quando o “empréstimo” era descoberto, corríamos eu e os cúmplices, a noite era a varinha de guanxuma que “emprestava” os ensinamentos dos pais, mas o sabor de mexerica do pé ficava na boca e era tão bom. E os cantos ensombreados... Espere, divago, e a leitura, onde entra? Não fique impaciente, leitor, sim, eu sei que disperso, tenho cá uma relação intensa com as letras da memória, tenha um pouco mais de paciência, ou entedie-se de vez, mas volte depois, eu te esperarei.
Os livros eram o meu tesouro.

Dez irmãos, sim, dez deles. E a tv, perguntam os engraçadinhos, mas ela ainda não dominava o tempo, ainda não era a senhora dos dias e noites. Ser a caçula entre dez irmãos é ser a menor, é ser a mimada, é ser a por vezes detestada, é ser a que não pode, é usar o que todos já usaram, é ser a que não manda em nada. Mas também, é ter sempre ter um colo, um sorriso, um carinho, é ter nos barulhos e conversas companhias constantes, assim como pessoas saindo e chegando. E um temperamento melancólico precisava de algo que traduzisse minha essência. Eu já brincava de solidão.

Pois esse amado quintal tornou-se um refúgio e, entre o jardim de cactos do meu pai e as velhas árvores, encontrei um cenário perfeito para criar um mundo só meu, onde brincava e vivia as milhares de fantasias que povoavam minha mente... quisera lembrar-me das letras inventadas nessa época. E era também um dos meus locais preferidos para ler, pois, às vezes, o silêncio daquelas tardes tornava-se tão denso que conseguia me isolar do mundo ao meu redor, mergulhando nos mais fantásticos caminhos. Era então mergulhar no universo que o livro me apresentava, no chão, descalça e moleca ou nos galhos das arvores mais alta que apreciava minha biblioteca particular.

Ítalo Calvino, em Se um viajante numa noite de inverno, fala sobre essa relação entre livro, leitor e o ambiente onde se dá esse contato, pois o meu foi terral, arvoral e não sei se de outro modo teria o mesmo prazer que deitada no fresco da terra ou sentindo a brisa e o silêncio das árvores.

Alguns desses livros permaneceram para sempre na memória: Naturama, uma enciclopédia do mundo animal, nada tão fantástico além de cores e seres. Eis o primeiro livro que trago nas lembranças entre desenhos, imagens, fotos, civilizações expandiam-se minhas fantasias e universos. O Manual do Escoteiro Mirim e o mundo fantástico do fazer, pesquisar, experimentar.

Depois, a paixão pela noite, suas estrelas e mistérios: um grupo de estrelas formando um enorme pato, - veja, dizia minha mãe - a cabeça cortada por uma delas no exato momento em que se preparava para engolir o mundo.

Entre irmãos, tarefas, ler, desenhar e conversar, as histórias fantásticas, lendas contadas pelos mais velhos, daquelas que o avô de alguém ouviu em algum lugar. Eu temia e admirava estes seres: o Pombeiro, o Lobisomem, o Saci, as bruxas e principalmente, as assustadoras histórias das Assombrações, as “Aparições” que indicavam a um escolhido onde haviam enterrado tesouros e que só descansariam quando o “enterro” fosse encontrado. Era o imaginário popular, a literatura oral e o fantástico trazendo o imenso e misterioso mundo, nos fazendo ansiar por mais.

Um dia, O presente, meu pai chegou acompanhado por um estranho, e era nossa uma coleção de livros e entre estes, alguns de capa vermelha, contos de fadas e fábulas e assim, histórias conhecidas de ouvir, ganharam letras e cores. Princesas, monstros, príncipes, duendes, magos, cinzas e sapatos, o bem, o mal, a moral. Eu ainda não dominava o universo das letras e todas as noites, minhas irmãs liam para nós. Atenta, lia com o ouvido, com o tato, memorizando as cores da imaginação, depois era brincar de ler, correr os dedos pelo papel, recriando a mágica. O melhor presente que ganhei.

Através e apesar da escola, meu universo de leitura crescia, ratinho de biblioteca desde a primeira série e, em casa, com a vida que seguia, crescíamos e mudávamos, cada um contribuía com seu gosto particular para enriquecer a nossa “biblioteca”, nossos gostos de misturavam e aumentava. Apareceram gibis, poesias, faroeste de bolso, heróis como Tex e Conan traziam magia e aventura de universos desconhecidos. Fotonovelas, revistas, romances diversos; livros de aventura, amor, terror, alguns clássicos da literatura universal e brasileira. Eu lia tudo e todos, os permitidos e os escondidos (sim, eu me escondia para ler o que suspeitava que me seria proibido... alguns eram mesmo) e aos dez, onze anos, A volta ao mundo em oitenta dias, A Ilha Perdida, Éramos Seis e O Pequeno Príncipe encantaram-me de forma irremediável assim como a Metamorfose (de Kafka) e o poema O corvo. Algumas leituras das quais guardo apenas cenas, não lembro títulos, mas que mesmo assim, foram importantes. Outras que iria rever tantas outras vezes e a cada leitura, um novo sentido.

Foi numa tarde qualquer, talvez um tanto melancólica, quando lia deitada na rede bem no fundo do quintal, que tive a consciência do que a literatura era em mim. Ainda não sabia, mas meus caminhos se marcaram ali, quando me comovi e chorar com as palavras de um livro.  Uma intensidade leitora que me fez esconder a razão daquelas lágrimas, envergonhada de ser sensibilidade em flor. Envergonhada por estar emocionada com uma história “inventada”.  Com dedicatória, ganhei em seguida do meu melhor amigo V de Vingança. Já estava absolutamente contaminada pelo universo literário.

Adolescência, primeiras paixões, namoros, rebeldias, inquietação: Poesia; pouco tempo para ler, muito para se viver, o sentimento e o tédio dos românticos me inundaram, uma escola que não me apresentou Machado de Assis, mas deu-me, na figura do bibliotecário, obrigada “Seu Adão”, onde estiver, por ter me apresentado ao livro Servidão Humana e aos Cem Anos de Solidão. O vestibular mostrou-me uma literatura assustadora, carta de referência para abrir ou cerrar as portas do destino e, finalmente, na universidade, o curso de Letras e a paixão tornando-se profissão.

Ser mais seletiva, tornar-me uma leitora modelo sem deixar que o pedantismo acadêmico superasse o prazer de ler. Ler e descobrir, questionar a própria leitura, contos, romances, poesia, gêneros e períodos, uma lista de tudo que se almejava ler e o tempo impedia. Romper as barreiras entre o suporte e o texto, reaprender com a internet, perder o chão, perder o rumo, recomeçar e aprender a dividir, buscar a teoria e a prática, compartilhar o amor pelas letras.

Ser professora de Literatura e descobrir o poder transformador da literatura e ao mesmo tempo, a frustração de nem sempre conseguir. Perceber que outro universo desconhece o prazer da leitura, lutar e sempre recomeçar a cada dia. O pão, a poesia e minha história de leitura entrelaçando-se com minhas escolhas pela vida.

Então, por que eu gosto de ler? Talvez pela mesma razão pela qual respiro: para estar viva, para sentir a energia do universo e poder, lendo e sendo lida, escrever um novo capítulo da existência, rompendo as barreiras do tempo e da distância.

2 comentários:

Alfer Medeiros disse...

Belíssimo texto!

Tânia Souza disse...

Muito obrigada Alfer, foi muito gostoso de escrever, lembrei de momentos importantes e como a leitura sempre esteve presente na minha vida.

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