10 de mai de 2011

A menina Ícaro - Helen Oyeyemi

Da estranha densidade

Por Tânia Souza
" Achava os haicais incríveis e meio terríveis. Quando lia os de sua autoria, cada um deles batia nela como um soco, único, muito forte."

Como uma garota tão pequena pode ser tão exasperante, tao querida e densa? Nas primeiras linhas, Jess convida e a vontade é de não deixar mais a leitura. Há um mundo novo de cores, escuro , sensações e sentimentos em volta de Jess... até o amor dá um certo medo.

A narrativa de Helen Oyeyemi é densa e envolvente; pesada e ao mesmo tempo leve, intrigante ao negar e oferecer pistas, deixando o leitor no plano da incerteza.

Quando ela se foi, fiquei vazia.
Pensei que a lembrança eu guardaria
Mas ao procurá-la em minha mente
Fiquei sabendo que ela estava morta
Pedi para ir bater à sua porta
Para me encontrar e seguir em frente.
Não me deixaram, pois seu intuito
Era prender-me para todo sempre.

Este poema feito pela pequena Jess e pela misteriosa adorável/assustadora TillyTilly me fez lembrar na hora do comentário do The Daily Telegraph sobre o livro, "oscilando entre a maldade e a vulnerabilidade, A menina Ícaro é um livro perturbador que se lê compulsivamente " até então, não havia sentido isso, mas de repente, sou apresentada a esse mundo. A paisagem que até então nos apresentava era uma, agora apenas o plano do incerto e da curiosidade.

Quem é Jess? Quem é TillyTilly, essa garota tão doce peralta e assustadora?

Ninguém sabe, mas um pedacinho de busca e procura em cada uma delas vai se insinuando dentro do leitor, lembrando o talvez de algum escuro absurdo em si.

A Menina Ícaro pode ser um livro assustador na mistura mais complexa de poesia, lirismo, delicadeza e sombra. A autora nos enreda num mundo no qual fantasia, realidade, sentimentos e culturas se entrelaçam numa narrativa única. A inteligência fora do comum de Jess incomoda um pouco, quase uma adulta em miniatura, entretanto, esse perfil vai se consolidando de forma natural por meio do estilo poético da autora e da sensação de deslocamento que permanece no livro o tempo todo, no modo como Jess observa o mundo e as outras pessoas.

Brindando-nos com a intensidade, com o enigmático e inquietante retrato de auto aceitação, de busca, de procura, de mistérios e culturas infindas que se entrecruzam.

Classifiquei como fantástico justamente pela atmosfera nao linear, pela narrativa não deixar bem claro se as coisas se passam no aspecto da imaginação, do psicológico ou do fantástico. Não dá para saber de fato quem é quem, e temos que construir algumas hipóteses, mas nunca vamos ter certeza, é disso gostei da narrativa. Como experiência de leitura, diria que é uma historia de se encontrar, de identidade, ou um outro sentido que cada leitor consigo construir.
Não é uma leitura que se termine na última página, pois não é tão fácil assim esquecer Jess e TillyTilly e, enfim, esse universo no qual o fantástico, mais do que tudo, permanece no plano da incerteza. 


"Pare. Não há nada.
Só eu, e eu peguei você. "
**

Sinopse - Jessamy Harrison tem oito anos. Sensível, caprichosa, dotada de uma imaginação extraordinária e poderosa, passa horas escrevendo haicais, lendo Shakespeare, ou simplesmente escondida no calor escuro do roupeiro. Como filha mestiça de pai inglês e mãe nigeriana, Jess não consegue deixar de se sentir isolada aonde quer que vá, e seus colegas de turma tomam cuidado com sua tendência a sucumbir terríveis ataques de gritaria. Quando é levada para o complexo da família da mãe na Nigéria pela primeira vez, ela conhece seus tios e as tias e primos - e seu incrível avô. Então, um dia, no deserto Alojamento dos Rapazes, encontro Titiola, uma garotinha esfarrapada da idade dela. Parece que afinal Jess achou outra desentrosada que vai entendê-la. TillyTilly conhece grandes e pequenos segredos e, alguns, ela não revela. Mas quando TillyTilly mostra a Jess como é fácil magoar as pessoas que a cercam, Jess começa a perceber que não sabe quem é TillyTilly. Lírico, poético e irresistível, A menina Ícaro é um romance de gêmeos, duplos e espíritos, de uma garotinha criada entre culturas e cores.

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