6 de out de 2011

Jarbas – André Bozzetto Jr.


Jarbas – André Bozzetto Jr.

É noite de lua cheia, o vento nas folhas é algo sombrio, mas ainda assim, seja muito bem vindo, caríssimo leitor, espero que goste dessas impressões de leitura.

Porém, tenha cuidado.

Espie a noite, observe o luar e atente ao que se esconde nas sombras: criaturas lupinas podem estar à espreita, afinal, o ilustre convidado de hoje é Jarbas. E em se tratando dele, nunca se sabe.

Mas quem é Jarbas?

Os leitores do blogue Escrituras da Leia Cheia já eram assombrados por Jarbas há certo tempo. No entanto, para quem está chegando agora ao universo lupino do autor André Bozzetto Jr. a sinopse nos apresenta o garoto Jarbas lá na década de oitenta, e como uma grande maioria dos garotos da época, era fã de livros e filmes de terror. Passados alguns anos, esse nome havia se convertido em símbolo de brutalidade e perversão. Jarbas é um lobisomem temido e odiado por homens e licantropos.  Como essa transformação aconteceu? Só lendo para descobrir. Cada aparição de Jarbas é marcante e tem, por essência, a crueldade.

“... viraram-se na direção indicada e duvidaram dos seus próprios olhos quando vislumbraram um garoto completamente nu acompanhando a cena por entre os arbustos. Ele possuía terríveis cicatrizes no rosto e também em várias outras partes do corpo, porém, o que mais contribuía para lhe conferir uma aparência apavorante e perturbadora era o brilho rubro que emanava dos seus olhos e o enorme sorriso que ostentava nos lábios. Um sorriso maléfico, que transparecia devassidão e perversidade.”


Tato, olfato e visão. Ou das formas e formatos

A capa de Jarbas é linda, o trabalho de Andrei Bressan, que também ilustrou Na Próxima Lua Cheia, me impressionou. As cores escolhidas, a atmosfera sombria, a combinação dos elementos me sugerem solidão, terror e ferocidade, são bons indicadores do que a história tem a oferecer. Sobre a diagramação, qualidade material e gráfica, a Estronho mais uma vez comprova a extrema qualidade do seu trabalho, ótima. Páginas macias, letras visualmente agradáveis para leitura. E claro, preciso destacar as ilustrações internas, são muito legais. O trabalho do ilustrador Christiano Carstensen Neto, releva momentos mórbidos e sombrios da narrativa de maneira bem interessante. E me lembram a atmosfera de antigos quadrinhos de terror. Gostei bastante.

Nas trilhas do lobisomem

Dos campos mais bucólicos do interior do país ao submundo noturno e decadente das cidades, muitos terão seu destino, vida e morte marcados por uma fera e a lembrança de um nome. Jarbas.

Na trama que conta 25 anos da vida de Jarbas, são muitos os personagens, alguns passam tão rapidamente que não marcam o leitor. A principio, isso me incomodou, preferia que fossem menos personagens e alguns, um pouco mais explorados, mas ao mesmo tempo, entendo que a história que acompanhamos é de Jarbas e dos incautos que cruzam seu caminho.  Em cada um destes momentos, conhecemos uma face do personagem em diferentes cenários narrativos. Os personagens que sobrevivem para atuar nas próximas páginas são os mais relevantes. 
Personagens como Jorge, César, Tadeu Belline, Bruno, Vandinho, Silveira, Francisco, Vitória, Fernanda, Clara, Eduardo, Ricardo, entre outros, oferecem ao leitor um retrato das paixões e desvarios humanos: amor, sexo, vício, inocência, solidão, curiosidade, crueldade, covardia, coragem, erros e acertos, tristeza, sacrifício, egoísmo, terror e medo são apenas alguns dos temas retratados.

Gostaria de comentar mais sobre alguns deles, como a menina Clara, o revoltante Tadeu Bellini ou o divertido morador de rua Vandinho, mas deixo para o leitor a diversão de descobri-los. Entre os personagens, destaque para João Preguiça, foi impossível não compará-lo com aqueles personagens míticos das cidadezinhas do interior, recluso, diferente, despertando medo e curiosidade nas crianças e se tornando, com o tempo, uma lenda viva. João Preguiça, de fato, tem muito a esconder.

Também Vitória, a caçadora de lobisomens movida pelo desejo de vingança merece um comentário a parte. Ao encontrá-la no livro, eu me lembrei de ter lido um conto no blogue, revelando os fatos iniciais que a levaram a se tornar uma caçadora e comentei, na época, que seria muito legal ler mais sobre a moça, pois bem, depois de ler Jarbas, minha opinião permanece, senti que a personagem merecia mais espaço e se o André quisesse contar uma história tendo Vitória como personagem principal, a menina corajosa que cresce para se tornar uma caçadora letal é cativante o suficiente.

Ah, mesmo que alguns personagens já tenham aparecido antes, segundo o autor, cerca de 70% do livro é inédito, os contos já existentes foram modificados para tomar a forma de capítulos e, principalmente, tiveram sua atmosfera sombria ampliada. A estrutura me lembra o formato de romance fix-up é possível ler alguns capítulos de forma independente, como se fossem contos, mas alguns dos personagens podem aparecer novamente e suas ações acabam se entrelaçando em momentos diferenciados da narrativa, na construção da trama maior.

Entre os temas do fantástico, o terror e o horror são meus favoritos. Pois é justamente o horror que permanece com o leitor ao acompanhar os caminhos de Jarbas.  O personagem que dá nome ao titulo do livro é extremamente cruel, não há desculpas, não há meio termo, e ao mesmo tempo, ele tem o dom de impressionar suas vítimas por sua suposta fragilidade. Ou seja, um predador fatal.  

        Alguns outros aspectos relevantes do livro: o foco narrativa alternando-se em primeira e terceira pessoa, conforme personagens e momentos narrativos, dão fôlego ao leitor. Diferentes referências, relacionadas à música, ao cinema e outros elementos, vão construindo e contextualizando os cenários no espaço/tempo; lobisomens são, de fato, lobisomens (acho que isso não preciso explicar). Aos que tem estômago fraco, aviso, o autor não economizou nas cenas sanguinolentas e cruéis. Entretanto, certas ações de Jarbas, ainda que não detalhadas, mas principalmente insinuadas na narrativa, revelam o quanto lobisomens podem ser ferozes, cruéis e incontroláveis. Assim como o próprio ser humano. E que a maldade, de homens e feras, assim como a coragem e a persistência, sempre podem surpreender um pouco mais.

2 comentários:

André Bozzetto Junior disse...

Tânia, achei sua análise bastante perspicaz. Agradeço pela divulgação. Abraço!

M. D. Amado disse...

Como sempre, uma resenha de ótima qualidade.

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