23 de out de 2011

Livraria Limítrofe: O Adeus - Alfer Medeiros

Livraria Limítrofe – O Adeus
Alfer Medeiros

Resenha de Tânia Souza

“Os olhos não vêem coisas, mas figuras de coisas que significam outras coisas”
(CALVINO, Ítalo, As Cidades Invisíveis)

Livraria Limítrofe é diversão garantida. Inovador em vários aspectos, pra mim, desde o processo de leitura, pois comecei a ler antes de ter o livro em mãos: o anúncio da publicação, a proposta, os capítulos extras, a tradicional degustação, o manual do livreiro limítrofe, a interessante não-capa... Acompanhar as diferentes etapas e ir saboreando aos poucos foi a minha primeira leitura.  A segunda teve início quando o livro chegou, eu já sabia que não tinha capa, mas mesmo assim, fiquei surpresa ao constatar que realmente, não havia capa. A cinta protetora e o reforço na primeira e na última página garantem a estabilidade do livro. Eu já tenho um livro sem capa, mas este veio numa caixa, as folhas soltas e enlaçadas por uma fita de cetim, e ele vai muito bem obrigada, ainda mais que não tenho muitos pudores em arrastar os livros por ai. Creio que a sobrevivência de Livraria Limítrofe está garantida, mas confesso, tenho certo receio em emprestá-lo. A diagramação é linda, cheia de detalhes e a ausência da capa não implica em falta de qualidade, pelo contrario, deixou ainda mais bonito.
   
Mas o melhor mesmo de Livraria Limítrofe está no que contêm as páginas macias. Uma livraria onde os personagens favoritos, ou não (!) de cada leitor podem criar vida é fascinante. Acho que provoca justamente o leitor em cada um e destaca a importância da leitura. Ler é um processo tão amplo, que o texto só tem forma definitiva na interação autor-texto-leitor. Livraria Limítrofe instiga esse sonho de tocar, falar, interagir e por que não, construir juntamente com o autor os seus universos literários favoritos.
      
Os personagens nos são apresentados de forma breve, alguns, tornando-se mais marcantes que outros: o divertido e de certa forma, curioso livreiro limítrofe; a esposa do livreiro; um polvo que... bem, isso o leitor pode descobrir sozinho; o misterioso interlocutor, candidato a ser o novo livreiro; os leitores e os não-leitores. E claro, autores. Sim, alguns deles também são personagens, assim como criaturas e outros seres inomináveis que tomam forma nas páginas tal como, anteriormente, fizeram em outras páginas, povoando a imaginação de várias gerações.

Os capítulos, que podem ser lidos sem linearidade, dividem-se entre as explicações sobre o funcionamento da Livraria Limítrofe, os objetos mágicos que ela oferece e entrevistas diversas, nas quais, muitas histórias vão sendo contadas, sempre em primeira pessoa. Tudo isso, em torno da busca de um novo livreiro. E cá entre nós, duvido que o leitor não sinta uma vontade irresistível de ser este sortudo. Eu senti.

Já fiz uma postagem especial sobre o Manual do Libreiro Limítrophe aqui no blogue, e ele também está disponível no site oficial do livro. ( que eu recomendo uma visita bem detalhada). De forma geral, o manual é um antigo pergaminho, escrito numa variante linguística descrita como um tipo de “galaico-português dos tempos em que a língua ainda era uma terra-de-ninguém sem regras bem definidas” e basicamente, descreve as ferramentas mágicas presentes na Livraria. O autor escreveu este trecho utilizando realmente uma forma de linguagem diferenciada, diferente da utilizada nos contos, nesse trecho, ela é floreada e arcaica, e com certeza, me deixou sonhando com artephatos mágicos, tais como o Pergamiño Imphinito, o Balcão-Base, a Gaita Doirada, o Apito de Vidro, a Luneta Rastreadora, o Marcador Memorial, a Ampulleta de Tempo Imutábel e a Caixa Registro-Calculadora.

Sobre os contos, dessa vez, preferi não falar de cada um ou escolher os meus favoritos, e não são poucos, inclusive um que é meu sonho de consumo. Apenas vou dizer que cada um apresenta personagens com diferentes vivências pessoais e literárias. Visitar a Livraria Limítrofe não é escolha do leitor, é a livraria que o escolhe. Mas isso não é imutável e ali, nem todos são leitores, apesar do presente que seria visitar uma livraria como esta, alguns não sabem aproveitá-la ou ainda, seguir as regras. Como o foco está nos personagens, o que cada conto nos oferece são sensações que brincam com nossos sonhos, ou ainda, nossos medos, tristezas, revelando momentos de melancolia, de alegria, de superação e esperança. Encontrei muitos personagens queridos, outros que não conhecia, uns que me assustam e alguns que me lembraram pessoas queridas que já não estão aqui. Finalmente, devo dizer que fechei a última página (afinal, não tem capa) com um sorriso. E esse sorriso era uma mescla de vários sentimentos.

A maior parte das ações se desenrolam no espaço da livraria, como este não é um espaço comum, muitos universos e cenários de desenvolvem nas tramas. É fácil esquecer que ainda “estamos” em uma livraria.

Além de muitas situações que podem ser verdadeiras lições de vida e ao mesmo tempo, momentos de diversão pura, assim como criticas sociais e divertidas ironias, o melhor do livro são as relações intertextuais. E essa é uma das minhas paixões no universo da leitura e da escrita, os caminhos hipertextuais pedem um leitor disposto a mergulhar na interação que as páginas podem oferecer; um leitor que é também um co-autor. Em Livraria Limítrofe, esse espaço sem margens ou fronteiras vai além das páginas do livro, de um conto a outro, de um personagem a outro, as possibilidades são infindas. Alfer Medeiros apresenta cenários, tons, cores, sons, personagens, trajes, e até mesmo uma simples bebida como peças importantes na construção de pontes e pistas literárias instigantes.

Uma coisa que estava me deixando curiosa era saber, no caso do leitor não estar preparado para o labirinto hipertextual dos contos, se a leitura perderia o sentido. Afinal, as referências intertextuais da obra são implícitas, e cabe ao leitor buscar sua história de leitura para completar as lacunas; pois vivi essa experiência em alguns contos e o autor escreveu narrativas autônomas, que independente das referências, permitem ao leitor construir um sentido, curtir a leitura conforme sua identificação (ou não) e gosto pessoal. Mas para leitores curiosos, Livraria Limítrofe pode ser desafiante, com as suas entrelinhas e labirintos literários, tece um universo bem mais amplo do que as suas 190 páginas e diferentes expressões artísticas e gêneros literários (do clássico mitológico aos últimos sucessos literários) que oferece.

Por fim, acho que o que me mais me fez gostar de Livraria Limítrofe foi a percepção de que não é somente o leitor fictício que realiza uma viagem literária.Também o leitor real, eu e você, por exemplo, realizamos esta viagem quando vamos reconhecendo nas páginas do livro as nossas leituras, mesmo as que não realizamos, e reconstruímos momentos importantes das nossas histórias, histórias de vida e de leituras.

Visite o site da Editora Estronho e saiba mais.

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