22 de out de 2011

Duplo fantasia heroica 2


Duplo fantasia heroica 2

A Batalha Temerária Contra o Capelobo, de Christopher Kastensmidt &
Encontros de Sangue, de Roberto de Sousa Causo

Resenha de Tânia Souza

“Quando Oludara sentiu que readquiria o controle de seus músculos, viu o Capelobo arrancar o topo da cabeça do homem, virar o crânio partido como uma tigela e começar a sugar o cérebro com seu focinho.”

O trecho acima, com participação mais do que significativa do Cabelobo, pertence ao livro Duplo Fantasia Heroica 2: A Batalha Temerária Contra o Capelobo/Encontros de Sangue, de Christopher Kastensmidt/Roberto de Sousa Causo. A editora Devir manteve o bem escolhido formato bolso, do selo Asas do Vento. Nesta publicação, as narrativas dão prosseguimento às aventuras contadas em A Bandeira do Elefante e da Arara e A Saga de Tajarê, do Duplo Fantasia Heroica I (resenha Aqui)

A arte da capa, de Jonathan “Jay” Beard, é lindíssima. A dupla Oludara e Gerard van Oost - da noveleta de Christopher Kastensmidt - é representada em um ambiente sombrio, iluminado por tochas. Uma pilha de crânios completa o cenário enquanto ao fundo, a figura sinistra de uma fera quase indestrutível revela muito do que as páginas têm a oferecer ao leitor: o fascínio do gênero espada e magia em cenário nacional. Como sugestão e curiosidade mesmo, gostaria de ver, em uma possível continuação, uma capa com referência a saga de Tajarê e Sjala. 

As duas histórias têm diferenciais interessantíssimos, que vou tentar comentar sem revelar muito do enredo. Na primeira narrativa, A Batalha Temerária Contra o Capelobo, de Christopher Kastensmidt, o próprio título indica que criatura de “feitura mágica” os heróis irão enfrentar.
O Capelobo é uma figura do folclore nacional marcado pela força, aparência sombria e por ser praticamente indestrutível. Principalmente a forma como ataca é assustadora. O que mais gosto nestas historias é o resgate do aspecto feroz das criaturas do folclore nacional. Mesmo os mais “peraltas” (que também mostram sua face no texto) podem ser perigosos.


Gerard e Oludara, mesmo tendo sobrevivido a algumas aventuras e batalhas, sentem a necessidade de aprender mais sobre a terra e os costumes, o que os levará diretamente aos Tupinambás, uma tribo antropófaga e pouco receptiva a visitantes. Sobreviver implica em mostrar o seu valor, para isso, o grande desafio da dupla é derrotar um inimigo quase indestrutível, o Capelobo. Também enfrentarão a desconfiança, a traição e os próprios preconceitos e medos.

Enquanto na primeira noveleta conhecemos mais de Oludara, o guerreiro ioruba e seus feitos heróicos, dessa vez é a figura do holandês que se torna mais clara, feitos do passado e gestos de coragem marcantes e não apenas o gosto pela aventura, são elementos que revelam mais do herói. Uma nova personagem surge, Arani, a bela e corajosa índia encanta particularmente um dos nossos heróis e deixa no ar a promessa de novas aventuras.  

Também o conflito entre crenças e dogmas religiosos torna-se mais evidente, há uma certa “humanização” dos personagens quando, justo a astúcia e a coragem para vencer os inimigos, há também espaço para dúvidas e questionamentos frente ao diferencial que se concretiza na descoberta de um mundo novo.  No contato com os Tupinambás, muito há de ser descoberto, do semelhante ao diferente entre os povos, fortalece-se a coragem e união entre a dupla.

A narrativa é divertida, alternando momentos de tensão, batalhas com muito perigo e ação, ao uso da ironia e do humor. Muito interessante a forma como a narrativa começa, lembrando como os bestiários podem ser fascinantes na descrição do que não se conhece. A Bandeira do Elefante e da Arara ainda tem muitas aventuras a oferecer aos seus protagonistas e, também, ao leitor. 

Em Encontros de Sangue, de Roberto Sousa Causo, esse tom mais leve não aparece. Com certeza, a narrativa é mais densa e introspectiva, sem prejuízo às cenas de ação e aventura, como o gênero pede. Sjala, que já havia me encantado anteriormente, comprova a razão dessa preferência.

Com Tajarê ausente desde a última aventura, a personagem cresce, vivencia momentos de difíceis escolhas, angústias e alegrias várias. A feiticeira viking prossegue em sua jornada de volta para a Aldeia do Coração da Terra em busca do filho, acompanhada pelos irmãos de Tajarê. Entre batalhas, escolhas e descobertas inusitadas, tem em seu caminho Icamiabas, Igpupiaras e pajés que guerreiam transformados em criaturas gigantescas. Mas a principal ameaça é a da guerra, a disputa por poder envolve traições e armadilhas que podem colocar em risco o próprio mundo.  

Entretanto, manter a paz não é o único desafio. Nessa noveleta, podemos saber mais sobre o passado de Sjala, as promessas que a trouxeram em missão a estas terras e o impacto de suas escolhas ganha dimensão e importância inesperada.  Como sempre, a magia esta presente de forma constante, intercalando-se com batalhas físicas bem descritas.  Os momentos introspectivos de Sjala a aproximam do leitor, em alguns trechos, de forma muito tensa, mas há também uma delicadeza que cativa. A forma como a narrativa se estabelece, principalmente no que se refere à magia, é muito bem contextualizada no cenário, de um modo muito gostoso de ler. 

“E do alto da elevação, Sjala sem um momento hesitante murmurou o canto e invocou a magia e com a suavidade de um peixe movendo-se nas águas densas do Grande Rio, transformou-se na garça-rosa de outrora. Ascendeu batendo levemente as asas (...) e subiu mais.”

Eu havia comentado, na resenha que fiz sobre a noveleta A Travessia, que tanto os personagens heroicos quanto as criaturas mágicas dessa saga são figuras “naturais no ambiente selvagem, místico e de natureza exuberante em que a narrativa se dá”, pois bem, minha impressão continua, não li muitos trabalhos de Roberto Sousa Causo, que eu me lembre, somente Selva Brasil, que gostei bastante, e a noveleta Travessia, mas estou cada vez mais admirada com a narrativa do autor.

A série Dupla Fantasia Heroica vem conquistando seu espaço e com certeza, o leitor que se aventurar não vai se arrepender. Em 128 páginas, as narrativas trazem o universo fantástico de um cenário exuberante, bem trabalhado nas duas noveletas, onde circulam e heróis e seus feitos incríveis, criaturas do folclore nacional e elementos da mitologia nórdica em aventuras inusitadas. Leitura fácil, envolvente e que conseguiu manter a excelente qualidade do volume I são pontos que me fazem esperar com ansiedade a sequência da série. 


4 comentários:

RobertoCauso disse...

Oi, Tânia. Passando pra agradecer a sua resenha, sempre inteligente e sensível às nossas propostas, o que sempre inspira a gente a continuar. Vem mais "Duplo Fantasia Heroica" por aí, com o terceiro programado para o primeiro semestre de 2012. Mas até lá, talvez você apreciasse o meu livro "A Sombra dos Homens" (Devir, 2004), que traz as primeiras quatro histórias da Saga de Tajarê -- duas delas tendo aparecido antes na revista "Dragão Brasil", pra quem se lembra da saudosa fase em que essa revista de RPG também publicou contos. Um beijo.

Tânia Souza disse...

Oi Roberto, então, quando li o Duplo Fantasia Heroica 1, já fiquei curiosa para ler A Sombra dos Homens, com certeza, está na lista dos desejados. Abraços e parabéns pela saga incrivel que criou, valeu!

Anônimo disse...

esse livro é uma bosta

Text-adora disse...

Olá, anônimo, que tal comentar identificando-se?

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