27 de dez de 2011

Era uma vez... A História da Aia, de Margaret Atwood


Impressões e Expressões de Leituras, por Tânia Souza

O que faz um livro tornar-se nosso favorito? Entrar nesta lista, por vezes seleta, de obras que inevitavelmente têm o dom de nos inquietar, encantar, surpreender ou mesmo assombrar? A História da Aia, ou O Conto da Aia, como trazem algumas traduções, é um desses livros que, enigmaticamente, entraram na minha lista de favoritos.

Na Republica de Gilead, outrora Estados Unidos da America, num futuro próximo, literatura, arte, direitos, escolhas, pensamentos... quase tudo se tornou proibido. O tema não é novo: humanidade em perigo, um regime fundamentalista e patriarcal toma o poder. Um Muro exibe os corpos dos pecadores, condenados que servem de aviso a todos. E nessa sociedade, as mulheres estão divididas em castas e categorias bem definidas: aias, esposas, martas, tias, antimulheres, economesposas... Algumas já foram Moira, Janine, Lydia, Elizabeth, Serena... Mas estes nomes, principalmente para as aias, estão proibidos. E no absurdo dos sistemas totalitários, de controle e como sempre, nos jogos de poder o lícito ou proibido é extremamente relativo.

Mas estas coisas, ao que me consta, foram queimadas, eu disse. Houve buscas de casa em casa, fogueiras...
O que é perigoso nas mãos da turba, disse ele com um não-sei-o-quê de ironia, é bastante seguro para aqueles cujos objetivos estão...
Acima de qualquer suspeita, disse eu.
Ele balançou a cabeça, aprovando com ar grave. (p. 170)

Primeiro, o que é uma Aia? Eu poderia dizer que são mulheres férteis cuja única função é procriar. Elas que se ajoelham e rezam para que o seu comandante possa lhe engravidar.

Dai-me filhos, senão eu morro. Isso pode ter mais de um significado. (p.69)

Que uma Aia pode ser Defred, Degren... de quem tiver o poder. E falhar pode ser muito arriscado, colônias com altos níveis de radiação, o muro... Resta-lhes ser propriedade de um estado totalitário. 

Somos úteros bípedes, nada mais: vãos sagrados, cálices ambulantes. (p.147)

E por serem tão valiosas que o domínio tenta se estender não somente ao corpo, mas a mente destas mulheres. Tão valiosas que o próprio suicídio lhes é veementemente negado, na retirada de qualquer objeto cotidiano que possa ser utilizado com essa finalidade. Mas também, posso dizer que são guerreiras, lutando para simplesmente, sobreviver.

Meu nome não é Defred, é outro que ninguém mais usa, pois está proibido. Guardo o conhecimento deste nome como quem guarda uma coisa escondida, um tesouro que algum dia haverá de desenterrar. Penso nesse nome enterrado. Esse nome tem uma aura à sua volta, como um amuleto, um patuá que vem de um passado inimaginavelmente remoto. À noite, deito-me na minha cama de solteira, de olhos fechados, e o nome flutua atrás das minhas pupilas, quase ao alcance da minha mão, brilhando no escuro. (p. 94-95)

Demorei muito tempo para começar essa leitura, a capa não me atraia e a sinopse tampouco, mas a dica havia sido boa – obrigada, moço do café -, e estava curiosa para ler. Meu livro foi comprado em um sebo – adoráveis sebos – quase por acaso, e ficou um bom tempo guardado.  Publicado pela Editora Marco Zero, em 1987. Na capa, um muro cinzento e duas figuras minúsculas, vestidas em vermelho, caminham junto a ele... E por que gostei tanto desse romance? A identificação pode ter acontecido por diferentes motivos, não apenas pelo Conto que a Aia nos conta, mas pela forma como o faz, pelas provocações que essa história me traz.

Talvez nada disto tenha a ver com controle, talvez não tenha nada a ver com quem tem o direto de ser dono de quem, ou com quem pode fazer o quê com quem, impunemente – até matar. Talvez não tenha a ver com quem pode se sentar e quem deve se ajoelhar, ficar de pé ou deitar-se de pernas abertas. Talvez tenha a ver com quem pode fazer o quê, com quem, e ser perdoado por isto. Não venha me dizer que é tudo a mesma coisa. (p. 145)

Defred pensa, pondera, procura brechas, tenta adaptar-se, conforma-se, julga, observa e muitas vezes, ousa e, quando não dói demais, se lembra. Em algumas ocasiões, apenas tenta continuar. E no seu contar, a intrínseca solidão de uma narrativa que é quase questão de sobrevivência.

Não queria estar contando esta história. (...) Não preciso contá-la. Não preciso contar nada, nem para mim nem para ninguém. Podia ficar aqui, sossegada. Podia me recolher. É possível se penetrar tão fundo, tão fundo, que ninguém mais nos tira de dentro de nós. (p 239-240)

Mas na verdade, ela precisa, e conta. Sobre quem é, como é a sociedade onde vive agora, sobre as pessoas que já amou e que lhe foram tiradas e sonha reencontrar, sobre quem foi. E alternando-se com essa necessidade de calar-se dentro de si, luta pela identidade, para não se perder de vez. Principalmente, quando o próprio nome é negado, e a autora mostra isso de uma forma contundente. A Aia que nos narra é chamada apenas de Defred. De Fred. Pertence a este comandante quase inexpressivo: Fred. Mas subjugada pelo olhar das Esposas, das Tias, das Martas, das outras Aias, dos Olhos... tantas nomenclaturas e castas. E ainda assim, ela tenta sobreviver. Ela ousa querer algo.

(...) no céu escurecido a lua flutua, sim, recende, uma lua de anseios, um estilhaço de pedra arcaica, uma deusa, uma piscadela de olhos. A lua é uma pedra, o céu está cheio de armas mortíferas, mas, meu Deus! Quanta beleza, apesar de tudo.

Quero ser abraçada e chamada pelo meu nome. Quero ser valorizada de uma forma que não sou; quero ser mais do que simplesmente valiosa. Repito meu antigo nome e me lembro de tudo que um dia eu podia fazer, de como os outros me viam. Quero roubar alguma coisa.

Margareth Atwood alterna momentos de prosa quase poética, como este trecho acima, com trechos duros e contundentes, a forma como descreve uma particicução, econômica, crua e ainda assim, angustiante. A autora alinhava fatos atemporais com naturalidade e consegue, lentamente, prender o leitor até o momento de tirar-lhe o chão.

Assim, desfilam perante o leitor questões de gênero, fundamentalismo, teocracia, política e organizações sociais, estado e religião, poder, metalinguagem, solidão, sexualidade, sensualidade, identidade, sobrevivência... cada leitor encontrará algo que lhe chame mais atenção, seja pelo absurdo, pela emoção, pela própria construção do literário.

Percebi que A História da Aia deixa algumas lacunas. Principalmente a omissão de algumas informações. Mas mesmo essas lacunas que podem ser apontadas como falhas, vejo como um recurso narrativo: a história nos é apresentada de um olhar. E ao olhar dessa narradora, nem tudo está claro, nem tudo é explicado. Mas é principalmente pela narrativa intima que ela me ganhou. A narradora tentando sobreviver através da palavra comove a escritora, a mulher e a sensibilidade que há em mim.

Quando eu sair daqui, e se eu conseguir registrar isto de alguma forma, mesmo que seja na forma de uma voz falando a outra, também será uma reconstituição, mais ainda do que agora. É impossível contar algo exatamente do jeito que foi, pois o que se conta nunca poderá ser absolutamente exato, sempre é preciso deixar algo de lado: há partes, ângulos, variáveis, matizes demais; gestos demais, podendo significar isto ou aquilo; formas demais, que nunca poderão ser descritas em sua totalidade; sabores e aromas demais, no ar ou na língua; meios-tons em excesso.(p.145)

Mesmo que eu desconfie da paisagem... Nem sempre a trama, o tecido, o texto são de fato, confiáveis, e que o narrador possui sutilezas que podem nos levar por labirintos e enigmas tantos.

Isso eu inventei. Não foi assim que aconteceu. O que aconteceu foi o seguinte: (...) Também não foi assim como aconteceu. Não tenho muita certeza, agora, de como aconteceu; não exatamente. Só posso confiar numa reconstrução (p. 277)

E para me apaixonar definitivamente, o tom metalingüístico da narrativa. A arte de contar histórias me cativa, o refletir sobre a palavra é simplesmente sedutor.

A caneta entre os meus dedos é um objeto sensual, quase vivo; sinto o seu poder, o poder das palavras que contém. (p.200)

Ou ainda, porque eu tenha essa ilusão de que também em mim, histórias pedem para ser contadas e também delas, depende um pouco a minha sobrevivência. E espero que isso não soe pretensioso como me pareceu, e sim, revele o quanto eu preciso e respiro a escrita, ainda que amadora. Escrever tem mesmo esse fascínio, não como algo mágico, mas sim, como um jeito de olhar o mundo, de captar algumas essências e a necessidade de tentar, o que nem sempre conseguimos, concretizar isso em palavras.

Então, por me fazer pensar em todas essas coisas e outras mais, O Conto da Aia tenha entrado em meus livros favoritos, porque tem cheiro de sensibilidade, sabe ser poético e extremamente cruel. Porque é como um lamento, uma única e desesperada forma de sobrevivência.

Ainda que inventada.

Ou não.


Da orelha

Vestida em longa túnica vermelha e de touca branca, Defred diariamente caminha em silêncio perante os Guardiões da Fé. Ela troca fichas por comida, enquanto observa o Muro, lugar onde traidores e criminosos pendem enforcados por pecados que não eram pecados no passado.

Durante a noite, em seu quarto austero, Defred relembra antigos e superados costumes como falar da vida alheia, usar papel moeda e praticar esporte ao ar livre. E sobre as coisas que são proibidas agora: mulheres terem empregos, ler, ter seu próprio nome, amar. O amor, que era central em outros tempos, agora era irrelevante.

Através do olhar de Defred, ficamos conhecendo o lado sombrio que a fachada ordeira da República de Gilead esconde. Um regime puritano e fundamentalista que leva o Livro de Gêneses ao pé da letra, com bizarra consequências para as mulheres e homens em geral.


5 comentários:

Celly Borges disse...

T, a forma como vc escreve é algo à parte. Apresenta o livro, informa e deixa com vontade de correr até o sebo e procurá-lo. Infelizmente só poderei fazê-lo em Abril. Mas adorei a história, digo, fiquei curiosa. É forte, cheia de tristeza. Belíssima essa frase destacada "A caneta entre os meus dedos é um objeto sensual, quase vivo; sinto o seu poder, o poder das palavras que contém".

=)

Tânia Souza disse...

Valeu Celly, eu me apaixonei por essa história e a forma como foi narrada é tão especial quanto a história que é contada, tive que deixar várias citações de lado, senão seria praticamente spoiller do livro todo. Recomendo muito essa leitura.

Dinah Lemos disse...

Vou postar um artigo no blog Transversos, no dia 25 de março, terça feira, e vou citar vc e essa postagem de teu blog. Grata.

Tânia Souza disse...

Obrigada Dinah Lemos, seja sempre bem vinda!

radical desde la raíz disse...

Engraçado, eu vi uma capa desse livro maravilhosa!! deve de ser uma nova edição, a partir dela fui ver de que tratava o livro e me encontrei com o seu blog. Parabéns!! Adorei todas essas palavras e citas com as que vc nos presenteia.
obrigada!!

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