10 de jan de 2011

Você tem medo do quê?

Você tem medo do quê?

Tânia Souza

Ah, o terror! Quando se fala em terror, claro, pensamos nos grandes nomes como Poe, Lovecraft, King, Straub e outros. Mas qual a situação do terror na LitFan nacional? Quais são os grandes temas do sombrio? É só digitar no seu buscador favorito: contos de terror, terror, horror. Surgem inúmeras páginas como opção. Os meios virtuais favoreceram e muito a produção, ou divulgação, de contos fantásticos na vertente do terror. No entanto, nem todos são representantes da literatura de terror, muitos são voltados à violência explícita e sangrenta com intenção de chocar. Isso é terror ou horror? E afinal, existe diferença? Na verdade, alguns autores não fazem essa distinção. Mas entendo que exista sim. O horror está voltado à violência explícita: e preparem-se para torturas, sangue, vísceras, mutilações, tudo muito repulsivo. O horror é quase como uma reação física perante uma ameaça de origem real.


Mas e o terror? É algo mais implícito: medo, ansiedade, paranóia, pesadelos, o estranhamento e a inquietação perante uma quebra de normalidade. Então, o sobrenatural e o inexplicável estão na raiz do terror. Claro que existem mesclas, nenhum é absoluto. Nada como um bom espectro destroçando em pedaços a vítima indefesa e… ahn, voltando ao assunto, nos contos de terror o escritor deve estar atento ao desconhecido, ao misterioso. Não basta apenas a presença do elemento sobrenatural, histórias com vampiros, lobisomens, demônios e afins nem sempre são histórias de terror, são obras do fantástico, mas para ser terror, é preciso atmosfera, algo que o terror psicológico traduz muito bem. Desde a escolha de termos que sugerem em vez de afirmar até a indecisão para definir o que foi real ou não naquele universo ficcional.


Na LitFan nacional, o terror às vezes fica meio esquecido nas publicações em geral, mas sempre surgem boas surpresas, como por exemplo, A Corrente, o thriller de Estevão Ribeiro. Normalmente, são nos contos, em coletâneas e antologias, que o gênero aparece mais. Em algumas discussões com autores diversos em fóruns literários e, principalmente, como leitora, tentei identificar o que alimenta a imaginação do escritor do gênero terror. É óbvio que vivemos com medo, mas pode-se dizer que vivemos em uma sociedade na qual os medos já não oferecem mistérios? Na história da literatura de terror, temas foram reinventados por questões políticas, religiosas, sociais e tecnológicas. Até que ponto isso mudou? É visível a preferência de alguns autores por temas clássicos. Outros conseguem captar a essência do contemporâneo nas suas obras e ainda, mesclar o antigo com o novo. Na verdade, alguns temas podem soar pesados e falsos se não existir uma contextualização, enquanto outros se tornam superficiais e não convencem.

Em uma rápida comparação entre os temas contemporâneos e clássicos nos textos de terror, há muito em comum. Creio que os medos são atemporais, só mudando mesmo a roupagem. Entre eles, alguns são recorrentes:

* A morte continua sendo uma incógnita para a humanidade, Deus e o Diabo também, aliás, ainda se mata, e muito, em nome da fé. 

* A ciência e o que o homem é capaz de fazer com o conhecimento pode ser bastante inspiradora. Dos homúnculos medievais, criados das maneiras mais estranhas aos clones criados com a mais alta tecnologia, todas essas façanhas podem ter um preço, além das questões morais e conseqüências inesperadas. "Frankenstein", a criatura antes sem nome, criada por do Dr. Victor Frankenstein, representa um dos sonhos do homem, vencer a morte, e nunca esteve tão próximo da realidade.

* Mitos e personagens folclóricos dividem espaço com lendas urbanas.

* Maldições apavoram tanto quanto contaminações, vírus, doenças e bactérias misteriosas.

* O apocalipse, seja de origem divina ou humana, é um fantasma que assombrou o passado e ameaça o futuro.

* O universo com seus mistérios pode ser fonte de terríveis pesadelos, assim como os segredos dos mais profundos mares.

* Objetos malditos compartilham lugar com correntes e vídeos amaldiçoados. Um camafeu do século XVII ou um celular de última geração podem ser os veículos da maldade.

* Becos, favelas e prédios podem ser tão assustadores quanto mansões e criptas centenárias.

* E o ser humano, com suas paixões e obsessões, continua sendo uma das feras mais cruéis desse mundo.

É claro que essa é uma lista breve, que pode crescer de forma surpreendente, e se alguém se lembrar de algum outro exemplo, pode me enviar. Independente do tema, uma boa história de terror explora os limites da tensão psicológica, o momento da oscilação entre o real e o inexplicável, entre imaginação, fantasia e razão. Sentimentos como a dúvida, a angústia, o medo, a loucura e o caos se refletem nas criaturas e situações mais inusitadas. Tudo isso, na segurança das páginas literárias.

Então é isso personas, escolham um bom livro de terror, fechem bem as janelas e pronto, estão preparados, ou não, para mergulhar nos mistérios dos sentimentos humanos mais sombrios.

Afinal, você tem medo do quê?

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