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18 de abr. de 2012

Um pedacinho das letras e páginas da infância

 
Um pedacinho das letras 
E das páginas da infância

Tânia Souza

Livros e crianças... Não poderia existir combinação das melhores. Penso nos livros que li quando criança, a maioria eram infantis, ou destinados ao público infanto- juvenil, mas para minha sorte, também li outros que não eram. Inclusive alguns que lia ‘escondido’ e, quem sabe, um dia escreva uma crônica sobre as leituras proibidas de uma menina quase má [confessando pecados infantes *.*]. Mas hoje, essas linhas pedem a doçura e o encanto das páginas de uma infância descalça, solta no vento e no sonho.

Verdade é que criança gosta de brincar, correr, aprontar, gastar energias. E isso, eu tinha de sobra. Mas também gosta e precisa exercitar o universo fantástico da imaginação, do sonho, da fantasia. E nas páginas dos livros, tem a oportunidade de vivenciar tantos universos, sombrios ou mágicos.

Eu gosto de literatura. E gosto de literatura para crianças. Mesmo sendo uma criança crescida. Isso começou há muito tempo, e a cada dia, fica melhor. Era uma criança de imaginações e sensibilidades demais, e talvez, os livros tenham sido minha salvação.  Eu criança era bicho de chão, de terra e de ar, sem mais. O universo do interior, na vida calma e protegida sob a sombra das árvores. E com um gosto acentuado por solidões.

E então, as historias chegaram

Os causos... Feliz de quem tem alguém para lhe contar historias. E recontar, e reinventar e recontar quantas vezes a vontade pedir. Meu primeiro contato com a literatura foi assim, ouvindo. Eram, em sua maioria, histórias sombrias. Minha paixão pelo folclore nasceu ali, naqueles momentos em que os relatos orais invadiam minha imaginação. Pombero... Ramãozinho, enterros, cavaleiros fantasmas... Almas chorosas navegando as águas... Cruzes de beira de estrada, soldados perdidos... Historias que aqueciam a alma, arrepiavam, nos enchiam de culpas e medos. E despertaram o fascínio pelo lado sombrio das letras.

Cantigas... Há quem possa me dizer, ah, cantigas não são histórias. Mas e quando, a cada estrofe, a imaginação constrói o personagem, os cenários, o conflito e o clímax de cada cantiga de roda? Um anel quebrado, um soldadinho cabeça de papel, a sombra dos laranjais, as três noites sem dormir, os amores e desamores do cravo e da rosa... Cantar e contar são verbos que andam toa juntos, às vezes, que podem, deliciosamente, se entrelaçarem.

Os gibis...  Dos quadrinhos em geral, não poderia jamais deixar de falar. Conan, o bárbaro, Tex, o defensor da lei; Mônica, minha baixinha dentuça favorita, X-Men: Vampira, Wolverine..., Manto e Adaga... e Contos da Cripta.  

Os contos de fadas...  Clássicos como Cinderela, Branca de Neve, Soldadinho de Chumbo, Pele de asno, Rosa Branca Rosa Vermelha... Todos eles e mais um pouco deles, e ainda que alguns não apresentassem apenas fadas e sim, duendes e bruxas sombrias devorando sonhos, eram pequenas e imensas tragédias, dramas, amores, aventuras e sonhos. Catarse. Encanto. A princípio, relatos orais, depois, em livros, imagens e cores.

E então, chegou o tempo da escola...

E da biblioteca...

Eu sonhava em conhecer a biblioteca da escola, quando via irmãos e amigos mais velhos trazendo livros pra casa, já me imaginava podendo escolher entre tantas novidades. E era tanta vontade que bem me lembro do primeiro livro que peguei na escola. Engraçado, nada lembro da história, e confundia o titulo, para mim, até ontem era Maria pipoca, mas em rápida pesquisa, descobri ser Madalena Pipoca.

E por acaso, me deparei com o nome da autora Maria José Dupré que escreveu dois livros que estão entre meus favoritos: A ilha perdida e Éramos seis.

A Ilha perdidaEste livro foi um dos meus tesouros da infância, e relembrar o porquê de gostar tanto dessa história funciona como uma revelação, mesmo criança, já estava contaminada pelo gosto por melancolia. A aventura, a solidão, o medo, a sobrevivência, o sabor da fruta pão, o adeus, os segredos...  Como não se deixar encantar por este universo tão mágico? Para mim, uma das mais apaixonantes leituras da infância.

Éramos seis - Éramos... O titulo deveria ter servido de aviso, mas não serviu. Quando terminei a historia e olhei a capa, percebi a verdade nele contida. Sobre o que li e senti, há muito que dizer, mas prefiro me lembrar da perplexidade que senti ao virar a ultima pagina. Estava nos galhos de uma árvore bem alta, um abacateiro, e de repente, estava tão emocionada que chorei. Era a descoberta da literatura. Da sensibilidade de vivenciar a dor do outro, da batalha, da solidão, das coisas não ditas, da dor de uma mãe que não dormia para que o filho não fosse levado... Da despedida, das amarguras de uma fria realidade. Muita coisa ali havia... Revolução, política... Eram-me desconhecidas. Mas compartilhei cada sentimento que passaram por aquelas paginas como se fossem meus.  E de certa forma, se tornaram meus.

A coleção Vaga-lume encantou minhas tardes por muito, muito tempo. Dias desses, reencontrei na escola O caso da Borboleta Atíria e O Menino de Asas, os volumes antigos e amarelados, mas inteiros. Não tive duvida, emprestei e me deleitei. E recomendei a leitura aos meus alunos.   

Certamente que este texto poderia crescer muito, mas não se trata de uma lista de indicações e sim, de pedacinhos de letras e memórias de uma menina leitora. Amanhã, ou depois, sei que vou perceber que me esqueci de muitos livros. Se fosse escrever sobre os livros infanto-juvenis que fui descobrindo com o tempo, então, seria um texto quase monográfico... Mas dentro de mim, as letras ainda vivem; são um pedacinho das coisas boas que a vida me deu.

5 de dez. de 2010

Da necessidade de ser lido - Tânia Souza

           

Cronista, jornalista, escritor, poeta, romancista... Por diversas razões, algumas pessoas escolheram (ou teriam sido escolhidas?) para tecer palavras na construção dos universos textuais. Gladiadores das palavras, pois “lutar com palavras”, como já dizia Drummond, “é a luta mais vã, entanto lutamos mal nasce a manhã”, enfrentam a cada dia essa batalha. 

Escrever é bom, mas nunca é fácil. A escrita tem uma importância muito grande em nossa sociedade, mas ao mesmo tempo, o escritor vive em constante luta por reconhecimento, por inspiração, por profissionalização. O olhar atento aos fatos mais recentes e significativos e transmiti-los na melhor forma de expressão. E qual a razão dessa constante busca? Para mim, escrever é como respirar. Uma necessidade.

De viva poesia e prosa vive o poeta, vive o contista, o narrador... Um causo, uma piada, um romance, uma novela, um poema com sua métrica, forma e efeitos, uma poesia em suas emoções e surpresas, o que são enfim palavras sem um sentido? O que são tipos, gêneros, artigos, ensaios, filosofias, paródias, as últimas notícias, intertextos e textos tecidos sem os olhos do leitor?

 
Há uma ausência latente em denúncias não divulgadas, versos abandonados, ideias não compartilhadas, aventuras de letras que não se revivem a cada leitura, uma angústia que não se revela nem divide-se aos olhos do mundo. Através das letras vivem-se mundos infinitos, e o escritor é o demiurgo, que sofre e vibra as ver suas palavras, seus amores, espantos, medos, ironias, melancolias, inspirações, raciocínios e angústias em constante ebulição de palavras: palavras duras, doces, cruéis, instigantes, provocantes, palavras enfim, espalhando e espelhando a vida. 

Escrevemos sim por uma necessidade pessoal de trabalhar o mundo ao nosso redor, mas principalmente, escrevemos pelo outro olhar, pelo segundo olhar, que compartilhará ou não essa visão de mundo, e juntos, construirmos novos sentidos. Uma sociedade sem Liberdade para a palavra está fadada ao fracasso, ao obscuro mundo da centralização do poder nas mãos de poucos. Devemos e queremos escrever, mas queremos principalmente a leitura.

            
O texto escrito só tem vida e sentido perante o leitor, somente ao seu olhar as palavras que textualizamos terão sentido e razão, ao leitor cabe gostar, desgostar, espantar-se, rejeitar, assustar-se, emocionar-se ou mesmo permanecer indiferente no momento da construção do sentido. Sem estes olhares, cada palavra é semente morta, inerme, congelada em solo infecundo, pois além do escritor, é o leitor um criador, e aquele que escreve, ainda que possa ler, reler e recriar universos, será sempre carente da vida que só o leitor pode lhe dar. 

Leitor! Leitor modelo, amador, inexperiente, experiente, equivocado, perspicaz, irritante, querido, esperado, provocante, amado, provocado, astuto, odiado, consternado, desprezado, invejado, desejado, arguto, inesperado, estimado, ansiado, prezado leitor, leitor, leitor... Pode-se negar e negar, mas é para você que o texto se faz. 

Obrigada por dar vida e sentido a estas palavras tecidas e destecidas perante a tela.

* Este texto foi criado não apenas para destacar a importância da escrita e do leitura como um processo entrelaçado - o texto se completa e ganha diferentes sentidos no momento da leitura - mas também como uma homenagem de quem é, principalmente leitora.

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